A diferença entre criar e gerar é esta
É por isso que nunca terei medo da inteligência artificial
Em 2024, a banda Mumford & Sons lançou uma música chamada Monochrome. Para a maioria dos ouvintes, era mais uma faixa introspectiva dentro do universo sonoro do grupo. Mas esta semana, enquanto ouvia a música, notei uma figura que me chamou a atenção e que mexeu com as referências que tenho escondidas em algum canto da minha mente e que, vez ou outra, despertam do insconsciente: a Hyacinth Girl (Moça do Jacinto).
Apesar de ter essa referência plantada em algum lugar do cérebro, precisei pesquisar a respeito. Eu sei que Mumford & Sons gostam de usar da literatura para compôr suas músicas, e por isso tive certeza se tratar de algo importante. Pra minha não surpresa, era uma referência a um dos poemas mais importantes dos últimos séculos, The Waste Land, de T. S. Eliot.
E de repente, a partir de uma música de uma de minhas bandas favoritas, entrei em um rabbit hole, mergulhei em todos os significados e referências. Descobri a ligação entre Os Contos da Cantuária, T. S. Eliot e Mumford & Sons, e, ao final, descobri a diferença entre criar e gerar. E isso mudou a forma como eu vejo a arte.
“Você me deu jacintos, há um ano; ‘Me chamavam de moça dos jacintos.’” — Mas quando voltamos, tarde, do jardim de jacintos, Seus braços cheios de jacintos, e seu cabelo molhado, eu não podia Falar, e meus olhos falharam, eu não estava nem Vivo nem morto, e eu nada sabia, Olhando para o coração da luz, o silêncio.
A primeira vez que a moça do jacinto aparece na literatura é em The Waste Land, de T. S. Eliot. Ela surge como lembrança breve, mas intensa. Uma figura de primavera em um poema que parece preso no inverno da alma. Em poucas linhas, Eliot nos coloca diante de algo que parece belo, mas que deixa um vazio. A imagem dela carrega uma tensão: ela representa vida, desejo e memória, mas a reação do narrador é de paralisia, como se o peso da experiência o impedisse de seguir. Ele não fala, não sente, não sabe. Só olha, imóvel, “no coração da luz, o silêncio”.
A importância do poema de T. S. Eliot não pode ser minimizada. Afinal, estamos falando do homem que ganhou o Nobel de Literatura em 1948. Mas de onde veio sua inspiração, sua originalidade, sua perspectiva única?
A declaração inicial de The Waste Land (A Terra Devastada) — "Abril é o mês mais cruel", é bela, profunda, cheia de significado. Mas tem algo estranho nela. Não tinha sido a primeira vez que Abril tinha sido usado de forma simbólica. Essa abertura é uma subversão das primeiras linhas do Prólogo Geral de The Canterbury Tales (Os Contos da Cantuária) de Geoffrey Chaucer. Chaucer retrata abril como um mês de poder restaurador, quando a chuva da primavera traz a natureza de volta à vida:
Quando abril com suas doces chuvas A seca de março penetrou até a raiz, E banhou cada veia com tal licor Do qual a virtude engendrou a flor;
Na terra devastada do mundo moderno de T.S. Eliot, em meio às ruínas da Primeira Guerra Mundial, a imagem de um abril fértil e ressuscitador torna-se impregnada de crueldade. "Abril é o mês mais cruel". Eliot pegou a imagem do abril fértil de Chaucer e olhou para sua experiência, para a sua realidade em uma terra devastada pela guerra e escreveu dessa perspectiva.
Nós, humanos, somos criaturas referenciais. Falamos e interpretamos o mundo baseando-nos nas nossas referências. Quando eu leio um livro ou vejo um filme eu o interpreto não apenas de forma objetiva, mas subjetiva, porque eu experimentei coisas que impactam minha interpretação.
Coloque um casal solteiro e um casal casado para assistirem ao filme História de um Casamento e, ao final, cada um terá perspectivas completamente diferentes sobre qual era o problema do casal, quem estava certo ou errado, qual era a solução e se o final do filme foi ou não satisfatório. Porque os olhos com que vemos o mundo foram banhados por lágrimas diferentes, por motivos diferentes e em diferentes momentos. Nossa experiência molda nossa referência.
Chaucer é a referência de T. S. Eliot, mas Eliot não copia Chaucer. Eliot lê Chaucer, ri de sua visão otimista de um abril positivo, olha ao seu redor, vê uma terra devastada pelo ódio, e usa essa referência para criar seu poema.
Mais de um século depois, eu ouço Monochrome. Mumford & Sons usaram outro trecho do mesmo poema e dele pegaram a musa inspiradora de Eliot e deram a ela uma nova abordagem, sua visão, sua experiência com o texto derivada de sua experiência com a vida.
Quando eu ouço Mumford & Sons eu estou carregado das minhas experiências. E agora, o subproduto de todas essas referências estará em meu repertório.
E aí está a diferença entre criar e gerar.
Muita gente está com medo das Inteligências Artificiais, da sua capacidade de gerar textos que, à primeira vista, parecem bons. E já vi criadores dizerem a repetida falácia: as IAs geram textos da mesma forma que os humanos: por referência.
Que mentira.
E como toda boa mentira, ela é apenas parcialmente verdadeira. Sim, humanos e IAs criam coisas a partir das referências externas que os influenciaram. Se eu passar minha vida toda lendo apenas Stephen King, é bem provável que vá escrever igual a ele, assim como uma IA treinada com todos os seus livros.
Mas então entra a mentira. Humanos não criam apenas através de referências externas, mas principalmente de referências internas. Não é o fato de eu ter lido Machado de Assis que vai me influenciar, mas sim o impacto emocional que Machado teve sobre minha mente e as correlações daquilo que li de Machado e todas as minhas experiências de vida.
Quando Herman Melville começa Moby Dick com a frase:
“Trate-me por Ishmael.”
ele não está apenas usando a referência do texto bíblico do Gênesis e pegando a imagem de Ismael, o filho rejeitado na teologia cristã e o filho amado na teologia muçulmana. Isso até mesmo uma IA treinada no texto bíblico poderia fazer. Melville, porém, está enchendo esse personagem com reflexões sobre sua perspectiva de vida e da sociedade em que está inserido. Ele pega uma imagem da referência e cria sua própria versão, única, derivada de sua experiência, criando sua própria referência.
Inteligências artificiais são excelentes em gerar conteúdo a partir de referências, mas apenas seres humanos são capazes de pegar as referências de outros e criar algo que transborde de sua própria experiência, porque quando um ser humano lê Eliot ou Chaucer, não lê apenas no campo do significado técnico, como uma IA o faria, mas a partir de suas experiências, suas dores e alegrias, coisas que uma IA nunca vai conseguir.
Então, a partir dessa experiência individual com a referência, apenas um humano consegue criar algo completamente novo, porque ninguém mais no mundo teve as mesmas experiências, as mesmas impressões, para assim trabalhar sobre sua perspectiva individual para trazer, pela arte, a próxima experiência e referência a ser usada por outros.
Eu amo as músicas de Mumford & Sons tanto pela sua sonoridade como por sua capacidade de me trazer referências literárias diversas. Eles até mesmo receberam o prêmio Steinbeck da Universidade de Stanford por suas letras inspiradas em um dos meus autores favoritos, John Steinbeck.
Poucos (bem poucos) músicos brasileiros se empenharam em extrair da rica literatura e poesia brasileira os significados que enriqueceriam suas canções e criariam um interesse maior pelos livros. Uma pena. Temos muito espaço para a criatividade humana, rica e insubstituível dentro das referências que recebemos e carregamos dentro de nós.




