A melhor história já contada
O que podemos aprender com o pequeno livro Hadji Murad sobre o gênio literário de Tolstói? Está na hora de os brasileiros apreciarem essa obra de arte.
O livro "Hadji Murad" é uma obra escrita pelo famoso escritor russo Liev Tolstói, publicada originalmente em 1912. A obra é considerada uma das mais importantes da carreira de Tolstói e um marco na história da literatura russa.
A inspiração para a escrita de "Hadji Murad" veio das experiências de Tolstói na guerra contra os chechenos no final do século XIX. Durante sua carreira militar, Tolstói teve a oportunidade de conhecer de perto a vida e a cultura dos chechenos, o que mais tarde inspirou sua escrita na obra. Além disso, a figura de Hadji Murad, um líder checheno que lutou contra as forças russas, também foi uma fonte de inspiração para a criação do personagem principal do livro.
A trama mostra um Hadji Murad já famoso por suas batalhas, um guerreiro corajoso e astuto que é obrigado a deixar sua terra natal para negociar uma trégua com os invasores russos. No entanto, ao longo da jornada, ele é traído e acaba se vendo preso em um jogo político mortal, lutando não só pela sua sobrevivência, mas também pela liberdade de sua nação.
Em "Hadji Murad", Tolstói explora vários temas importantes, incluindo a questão da guerra, a relação entre o poder e a moralidade, e o papel da liberdade na vida humana. A obra também aborda questões mais amplas sobre a natureza da humanidade, incluindo a corrupção, a hipocrisia e a moralidade.
O estilo literário de Tolstói é bem conhecido por sua precisão, clareza e profundidade psicológica. Em "Hadji Murad", ele aplica esses elementos ao descrever as vivências e os dilemas dos personagens, tornando a obra intensa e cativante. Além disso, a escrita realista de Tolstói dá ao livro um toque de autenticidade e verdade, o que o torna ainda mais poderoso.
Hadji Murad é descrito como alguém com um rosto infantil. Tal descrição tem um papel importante. A fama de Hadji Murad o precedia. Em todos os lugares ele era venerado ou temido por suas façanhas militares. Ainda assim, quando o viam pessoalmente, duas características são sempre destacadas: seu rosto infantil e sua perna mais curta, que fazia com que mancasse. Esta última característica deve-se ao fato de Hadji Murad ter certa vez conseguido fugir de seus inimigos pulando de um penhasco, fazendo com que tivesse fraturas nas pernas e o restante de seu corpo ficasse muito ferido. Após se recuperar, uma perna ficou mais curta do que a outra, fazendo com que manquejasse. Isso era visto como um símbolo de sua coragem e bravura. Em contraste, seu rosto infantil simbolizava a inocência de sua alma. Ele é um homem arrastado para guerra contra sua vontade. Ele não faz parte dos jogos políticos e de poder, mas mesmo assim o julgam como conspirador. Assim como uma criança, ele diz o que pensa e age em acordo com o que acredita ser certo. Sua inocência, porém, não deve ser confundida com ingenuidade. Ele sabe ler as pessoas, sabe ver a alma do outro, e é capaz de tocar o mal, sem no entanto corromper sua alma.
Hadji Murad é acompanhado por uma pequena quantidade de guerreiros chamados murids em sua fuga. Eles são apresentados como leais a Hadji Murad e dispostos a seguir seus comandos e morrer por ele. A relação deles com Hadji Murad é de profundo respeito e admiração. Eles têm uma mentalidade guerreira forte e uma fé cega em seu líder. Embora eles sejam descritos como sendo brutos e selvagens, eles também são retratados como sendo profundamente leais e dedicados a sua causa e a Hadji Murad. Eles são uma parte importante da história e ajudam a criar tensão e aventura no livro. Eles são uma forte representação da complexidade da guerra e dos seus efeitos sobre aqueles que a vivem, bem como as diferentes facetas da juventude e da maturidade, e diferentes tipos de personalidade e motivação na luta pela liberdade.
Tolstói emprega aqui uma técnica literária criada por ele chamada peepshow. Esta é uma técnica narrativa que envolve o uso de personagens secundários para revelar a verdadeira natureza dos personagens principais. Em vez de mostrar diretamente a personalidade e as motivações dos personagens, Tolstói usa outros personagens para "espiar" e descrever o que eles estão pensando ou sentindo. Esta técnica cria uma camada de distância entre o narrador e os personagens, permitindo uma análise mais profunda da psicologia humana e dos eventos da trama. Essa técnica também usa de eventos aparentemente desconectos, mas que ajudam a trama a se desenvolver e assim o leitor passa a ter uma visão mais ampla de toda a história. Ou seja, você, leitor, não vê a história apenas da perspectiva do personagem principal, mas de personagens secundários (em Anna Kariênina Tolstói chega a usar a mente de um cachorro para descrever uma personagem) e histórias paralelas que tornam você tão onisciente quanto o escritor e com isso te habilita a julgar melhor a situação em que os personagens se encontram.
Por falar em personagens, Tolstói consegue (re)criar aqui pessoas muito interessantes, com características complexas. Tolstói retratou a complexidade da alma humana de forma profunda e sensível, criando personagens que são ao mesmo tempo reais e enigmáticos. A capacidade do autor em apresentar o lado oculto da psique humana é uma das principais razões pela qual sua obra é considerada tão rica e relevante até hoje. Seus perosnagens têm virtudes e vícios. Todos são apresentados com suas cores reais, seu lado sombrio, seus medos, seus sonhos, fraquezas, tudo apresentado através dos diálogos ou das cenas paralelas (peepshow).
Personagens:
Hadji Murad: Ele é retratado como um chefe caucasiano corajoso, astuto e leal. Hadji Murad é um líder carismático que é respeitado por seu povo e tem a capacidade de tomar decisões difíceis em momentos de crise. No entanto, ele também é confrontado com dilemas éticos e morais. Embora ele tenha lutado contra o Império Russo, ele eventualmente se rende a eles e busca negociar um acordo. Hadji Murad é um personagem complexo e multifacetado, que é retratado como uma mistura de força e fraqueza, virtude e vício.
Príncipe Vorontsov é retratado como o sucessor do Comandante Vorontsov como governador geral russo no Cáucaso. Enquanto seu pai é descrito como autoritário e impiedoso, o Príncipe Vorontsov é retratado como mais humano e compassivo. Ao longo da trama, ele tenta equilibrar sua lealdade ao Império Russo com sua compaixão pela situação dos chechenos e se esforça para encontrar uma solução pacífica para a rebelião. A personalidade do Príncipe Vorontsov é vista como uma reflexão da ambiguidade e incerteza da situação política e social na região do Cáucaso. Em última análise, o personagem é uma representação da busca da humanidade por um caminho justo e moral em situações complexas e conflitantes.
Shamil (c. 1797–1871) é o líder da resistência caucasiana às tentativas da Rússia de governar a região ao redor das montanhas do Cáucaso no início e meados do século XIX. Shamil teme que sua posição esteja em perigo devido ao notório sucesso do guerreiro Hadji Murad. Shamil planeja assassinar Hadji Murad, mas Hadji Murad escapa. Shamil mantém a família de Hadji Murad em cativeiro na tentativa de atrair Hadji Murad de volta para matá-lo. O tema lembra a história de Davi e Saul. Davi, após ser ungido por Samuel, torna-se o guerreiro mais notório de todo Israel, atraindo o ciúmes do rei Saul que, ao invés de aproveitar a capacidade militar e de liderança de Davi, teme ser substituído pelo jovem guerreiro e, por isso, decide matá-lo.
Joseph Butler: Em Hadji Murad, o personagem fictício Joseph Butler representa um jovem Tolstói. Tolstói entrou no exército russo em 1851 como suboficial que lutou, mas foi excluído das dificuldades do serviço devido à sua herança aristocrática. Joseph Butler desfruta da mesma posição. Enquanto servia na região do Cáucaso, Tolstói conheceu o guerreiro Hadji Murad. O personagem de Butler conhece e faz amizade com o fictício Hadji Murad. Após poucos anos de serviço militar, Tolstói abandonou o exército para viajar pela França. Durante sua estada, ele acabou se enredando em uma grande dívida devido ao seu hábito de jogar. Em "Hadji Murad", Joseph Butler também é afetado pelo vício em jogos de azar e acaba ficando devendo muito após uma noite de jogo. Como narrador onisciente do romance, Tolstói retrata os sentimentos de saudade, vergonha e medo de Butler ao se render ao vício novamente.
Avdeyev é um personagem secundário da história, colocado por Tolstói para simbolizar o absurdo da guerra. Ele escolhe ir à guerra no lugar de seu irmão, pois este tinha filhos. Ele é descrito como um homem simples, trabalhador e ingênuo. É ferido em batalha e morre no hospital. Logo após sua morte, Tolstói dedica um capítulo para contar de sua família e mostra seu irmão sendo duramente criticado por seu pai por sua preguiça. O pai deixa claro que o filho errado foi para a guerra, e o capítulo encerra com a mãe de Avdeyev descobrindo sobre a morte do filho.
Czar Nicolau I: Um czar da Rússia muito letárgico e amargo. Ele é muito egoísta e maltrata as mulheres e aqueles que estão próximos a ele, e se mostra um péssimo tomador de decisões e líder.


