Alguns livros são mais interessantes: este é o motivo
Como uma pequena mudança na perspectiva da história pode tornar uma cena muito mais imersiva
Laura estende sua mão para a escrivaninha ao lado da cama e acende a luz do abajur. Em seguida, com o livro vermelho em mãos, senta-se e ajusta um travesseiro em suas costas, agora não tão doloridas, mas o suficiente para ainda atrapalhar seu sono. A cidade estava fazendo sua parte, mantendo o silêncio noturno, à exceção de uma gata que se preparava para um ritual de acasalamento. Laura pula a introdução, o prefácio e todos os agradecimentos e começa a ler o livro. As palavras voam diante de si, sem encontrar abrigo em sua mente. A gata começa seu ritual, aquela fúria desesperada que acompanha a criação da vida, com gritos e gemidos tão animalescos e naturais quanto os de uma amante.
Os olhos de Laura começam a piscar e seus ouvidos ignoram completamente o cio da gata. Ainda com o livro em mãos, desliza as costas que já não a incomodam, e deita-se de lado. Cerra os olhos antes que as mãos fechem o livro. Está dormindo. Era um milagre. Não precisara de cinco minutos para acessar o verdadeiro poder do seu livro de cabeceira predileto. O velho que a presenteara com aquela obra dissera para ser cautelosa, que deveria ler mais do que cinco páginas, que as consequências poderiam ser irreversíveis e que, para a maioria dos seres humanos e outras criaturas, quatro páginas eram o suficiente para acessar o poder. Um poder capaz de entediá-la mais do que a dor do ciático a incomodava. Aquele era, sem dúvidas, o livro mais entediante de todo o universo. Um livro que fora capaz de fazer deuses hibernarem e estrelas e planetas inteiros caírem em profundo sono. E ninguém nunca soube o desfecho da história, exceto seu autor, cujo nome permanecia tão esquecível quanto suas primeiras páginas.
Talvez esse livro também esteja na sua estante. Sua capa pode não ser vermelha, mas você também não se lembra das suas primeiras páginas e o nome do autor é tão vago quanto um horizonte distante em um deserto. E talvez o seu livro esteja se tornando assim. E, se esse é o caso, o motivo pode ser algo muito simples: você escreve apenas de forma diegética e não mimética.




