Aviso de Gatilho
Sobre avisos de gatilhos.
Cresce o número de obras, sejam livros ou audiovisuais, com os terríveis avisos de gatilho.
Aviso de gatilho é uma manobra de fuga. Um reflexo de uma sociedade que não quer sentir dor emocional e que tem muitos traumas. A hipersensibilidade é sua principal causa. Sem dor emocional, não há processo de restauração e superação. Como posso superar um trauma se o guardo no fundo de um baú no meu coração e passo a vida toda em vigilância para que ele não se abra? O próprio processo de vigilância é em si um potencializador do trauma. Quando vamos a um médico tratar um câncer ele não dirá: "Cuidado, não deixe ninguém chegar perto do câncer, nenhum remédio, nenhum bisturi, senão ele piora. Deixe-o quietinho." Também um psicólogo não dirá sobre suas feridas emocionais: "Olha, vejo que você tem traumas, mas é melhor não falar disso. É melhor esconder esse trauma e nunca ver nada que o lembre ou o confronte com o ele."
A fuga dos gatilhos é, portanto, um remédio que mata ao invés de tratar o doente. Viver exige coragem e enfrentamento dos nossos traumas.
O leitor sensível deve ter o bom senso de identificar qual conteúdo causa-lhe dor boa ou dor ruim. Nem toda dor é ruim. A dor muscular após o exercício é dor tanto quanto a dor após uma pancada. Uma delas, porém, causa crescimento muscular, enquanto a outra apenas deixa hematomas. Raramente, porém, um livro terá o propósito de causar a dor apenas pelo prazer de seu autor de causar hematomas em seus leitores.
Todos os livros já escritos possuem algum tipo de gatilho. Como faríamos isso na prática? Aliás, quais são os gatilhos? Temos 7 bilhões de pessoas no mundo e não temos um número pequeno de gatilhos. Os gatilhos podem ser desde os mais simples ("histórias de fantasmas me apavoram e me fazem perder o sono") até os mais complexos. Vamos incluir todos os gatilhos ou vamos selecionar alguns? Quem faz essa seleção? Com base em qual critério? E se o gatilho está em uma cena final do livro, eu aviso e dou o spoiler?
Durante séculos, milênios na verdade, as pessoas viveram sem alertas de gatilho, simplesmente elas liam e, se percebessem que o conteúdo não lhes agradava, elas paravam a leitura. Se uma pessoa é sensível demais para lidar com um texto com gatilhos, ela precisa de tratamento psicológico, pois ela precisa superar o trauma, não esconder-se nele. Traumas são tratados por psicólogos expondo-os, fazendo a pessoa se confrontar com o real problema, chorar, expurgar, e então ser capaz de enfrentá-lo sem se ferir.
Alertas de gatilhos (bem como o fato de termos tantos gatilhos) não são uma solução, são apenas reflexo de um problema maior. Conheci um homem certa vez quando morei no norte do Brasil que disse odiar músicas com saxofone e que nem estava mais indo na igreja porque tocavam saxofone lá. Quando questionei o porquê desse gatilho tão específico ele me disse que havia frequentado muitos prostíbulos na juventude e em todos havia músicas com sax. Aquela memória o entristecia e o lembrava de um homem que ele não queria mais ser. Talvez as igrejas também devam ter avisos de gatilhos, ou as rádios quando forem tocar Kenny G.


