Cancelem Machado! (E aproveitem para cancelar meu plano da Tim)
Era uma vez um menino. Ele tinha qualidades, apenas qualidades. Ele viveu e nunca morreu. Tudo deu certo. Fim (Texto incancelável)
Vivemos tempos em que é mais fácil cancelar autores clássicos do que o plano de celular da Tim. Depois de Tolkien, C. S. Lewis, Monteiro Lobato e Lovecraft, chegou a vez de um dos maiores autores de literatura infantil em língua inglesa, Roald Dahl. Dahl não tem no Brasil a mesma fama que tem nos países de língua inglesa, onde reina absoluto como best seller de livros infantis. Mesmo assim, suas obras não são estranhas a nós, que crescemos com as adaptações ao cinema de Matilda, A Fantástica Fábrica de Chocolates (a primeira versão, claro), Convenção das Bruxas (a primeira versão também, por favor) e O Fantástico Sr. Raposo. São obras bem escritas e que para milhões foram seu primeiro livro, obras repletas de apego afetivo.
Pois bem, querem cancelá-lo. Mas desta vez decidiram não retirar suas obras do ar, mas simplesmente reescrevê-las para que elas sejam menos… ofensivas.
Ah, velhos tempos da ditadura militar onde os artistas tinham que submeter suas obras aos ditadores para que estes pudessem reescrever suas músicas/livros/peças/artigos.
Eis as palavras proibidas na distopia de hipersensibilidade em que nos encontramos: gordo, feio e doido.
O gordo, de A Fantástica Fábrica de Chocolates, não pode ser chamado de gordo, apesar de gordo sê-lo. “Enorme”, ao que parece, é menos ofensivo, e portanto assim ele será descrito. Eu, que escrevo este texto após comer um delicioso sanduíche de atum na esperança de perder a pança que pesa em meu abdômen, posso ser tradicional demais, mas confesso que ficaria mais ofendido se alguém me chamasse de enorme na fila do supermercado.
A Sra. Peste, do livro Os Pestes, só pode ser chamada de bestial, mas nunca de feia. Porque feia é feio demais, bestial é mais agradável. Não se pode chamar os inimigos de feios. Nem os feios.
Ao que parece, até mesmo a sociedade dos oompa loompas ficou ofendida com o termo “pequenos homens” e serão agora “pequenas pessoas”.
Até um “casaco preto” e um “lençol branco” foram removidos, porque essas frases são ofensivas demais para pretos e brancos.
Eu vou além. Cancelem-se as cores. Todas elas. Sou um saudosista, sempre achei a década de 20 o auge da sociedade, então sejamos em preto e branco novamente. Tons pastéis, no máximo, em cerimônias de casamento ou festas de debutante.
Bruno Molinero, colunista da Folha, acertou ao comparar tal cancelamento com obras de Machado de Assis. Ele cita um trecho de seu opus magnum “Memórias Póstumas de Brás Cubas” onde ele descreve a personagem Eugênia. Leia o trecho:
"O pior é que era coxa. Uns olhos tão lúcidos, uma boca tão fresca, uma compostura tão senhoril; e coxa! Esse contraste faria suspeitar que a natureza é às vezes um imenso escárnio. Por que bonita, se coxa? Por que coxa, se bonita?"
Aqui temos um exemplo claro de capacitismo e de machismo, afinal o autor claramente sugere que há incoerência entre beleza e deficiência física. Mas, se fôssemos julgar Machado, quem está falando essa frase? É Machado, o autor, ou Brás Cubas, o narrador da história? Se Brás Cubas, não há o que fazer, afinal é um personagem fictício. Não podemos brigar com ele, cancelá-lo, manchar sua reputação. Para piorar, ele morreu, o que deixa toda a situação ainda mais delicada. Mas se culparmos Machado, como o faremos? Ele estava expressando uma opinião sua ou de seu personagem? Se ele descrevesse Hitler, ele não poderia colocar palavras racistas em sua boca? E se colocasse, seriam palavras do ditador baixinho ou do autor incauto?
E por que não tentam reescrever Machado? Seria porque considera-se a literatura infantil menos arte, e portanto menos importante, do que a literatura adulta? Machado, que é lido obrigatoriamente em escolas, sobre quem teses doutorais foram escritas, é mais artista do que Roald Dahl, ou Monteiro Lobato, ou Shel Silverstein?
E porque querem reescrever a história? Afinal, é disso que se trata? Qual o número real de pretos (eu sou preto, só pra constar, e gordo, então tenho lugar de fala aqui, não é assim que se diz?) que se ofenderam com o casaco preto? Qual o número real de gordos que se ofenderam porque um menino perturbado não consegue parar de comer e engorda a ponto de colocar em risco sua própria é chamado de gordo? A saída mais fácil pode ser modificar todos os textos e todos os discursos, mas é a saída mais saudável? Essa hipersensibilidade está matando a arte. Se meu personagem é racista, eu posso colocar palavras racistas em sua boca? E se for um mocinho? Afinal, mesmo mocinhos são imperfeitos. A arte deve refletir a realidade.
Gosto do trecho a seguir de George Orwell, no livro 1984:
Todos os registros foram destruídos ou falsificados, todos os livros foram reescritos, todos os quadros foram repintados, todas as estátuas, todas as ruas, todos os edifícios foram renomeados, todas as datas foram alteradas. E o processo continua dia a dia, minuto a minuto. A história se interrompeu. Nada existe além de um presente interminável no qual o Partido sempre tem razão.
Não é exatamente isso que presenciamos? A reescrita da história? O que é pior? O caso dos 10 negrinhos ou um spoiler de que no final não sobrou nenhum?
E sobrará algum no final? Algum artista? Algum texto original? Alguma verdade?
Cuidado com o que escrevem hoje, artistas, pois daqui a cinquenta anos reescreverão seus textos, sem seu consentimento, porque, por algum motivo, um pequeno grupo de pessoas se ofendeu com o que você tinha a dizer.



