ChatGPT é o fim dos escritores?
O ano de 2023 começou com uma notícia que abalou os fundamentos da sociedade como nós a conhecemos. Há quem diga que começamos uma nova era, a Era da Inteligência Artificial. E essa era é inaugurada com a presença assustadora da plataforma ChatGPT, uma IA capaz de “criar” textos “complexos” em questão de segundos. Empresas no Brasil e no exterior já começaram a demitir copywriters e a substituí-los pela plataforma.
Foi então que um aspirante a escritor, Ammaar Reshi, resolver utilizar o ChatGPT para escrever o texto de um livro infantil, e uma plataforma chamada Midjourney para criar as imagens. Em poucas horas o livro estava pronto, sem gastar um centavo (e sem gastar qualquer esforço criativo). O resultado chama mais a atenção por sua excentricidade do que por sua qualidade, mas ainda assim deixou muitos escritores assustados. Seria este o fim da profissão escritor? Seremos substituídos por máquinas?
Em 2016 os produtores do filme Morgan decidiram criar em parceria com a IBM o primeiro trailer feito completamente por uma inteligência artificial. O resultado foi uma edição cheia de erros, com cortes estranhos, mas que ainda assim assusta pela capacidade ainda embrionária de algo que poderá ser muito poderoso.
Fiz alguns testes com o ChatGPT no intuito de estudar até que ponto sua capacidade de escrita é criativa ou apenas correlativa. Criatividade é, ao meu ver, um dom divino, aquilo que nos aproxima de fato com o divino, a capacidade de sermos criadores. Seria possível uma máquina replicar esse processo? A resposta é: no momento, não. Espere um pouco, deixe-me ser mais enfático através do caps lock: NÃO.
Veja os exemplos abaixo. Na primeira tentativa eu pedi para o ChatGPT escrever um mini conto ao estilo Stephen King sobre um cachorro abandonado. Eis o que ele me respondeu:
Havia uma vez um cachorro abandonado, com pelagem marrom escura e olhos tristes. Ele era conhecido como Max, e passou a maior parte de sua vida vagando pelas ruas, buscando comida e um lugar quente para dormir.
Um dia, Max foi encontrado por uma mulher bondosa que decidiu levá-lo para casa e cuidar dele. Max estava tão grato por finalmente ter encontrado um lar, que se tornou o cão mais leal e amigável que a mulher já tinha conhecido.
Mas algo estranho começou a acontecer. À noite, Max começou a latir e rosnar para coisas que não estavam lá. A mulher tentou ignorar o comportamento, mas logo ela também começou a ouvir barulhos estranhos vindo do quintal.
Max se tornou cada vez mais agitado à noite, e a mulher começou a ficar com medo de dormir sozinha em casa. Ela decidiu investigar o que estava acontecendo, e descobriu que havia um antigo cemitério abandonado perto de sua casa.
Ela começou a investigar o cemitério, e descobriu que havia uma lenda sobre um cachorro possesso que vagava pelas ruas à noite, procurando por vingança. Max parecia ser o próprio cachorro da lenda, e a mulher começou a temer por sua vida e a de sua família.
Ela procurou ajuda de um padre local, que acreditava poder expulsar o espírito maligno de Max. Mas, enquanto o padre realizava o ritual de exorcismo, o cachorro começou a agir de forma violenta e selvagem, e a mulher teve que correr para salvar sua vida.
Max foi levado para uma instituição de caridade para animais, onde os trabalhadores notaram que havia algo estranho com ele. Eles decidiram mantê-lo trancado, temerosos de que ele pudesse prejudicar alguém.
Mas, à noite, Max conseguia escapar de sua jaula e voltar para a casa da mulher, onde ele começou a persegui-la e sua família com fúria demoníaca. A mulher sabia que precisava descobrir uma maneira de se livrar do espírito maligno antes que fosse tarde demais.
Com a ajuda do padre, eles realizaram outro ritual de exorcismo, desta vez com sucesso. Max foi libertado do espírito maligno, e retornou a ser o cachorro doce e amigável que ele sempre foi.
Mas a mul
Sim, o texto acaba assim. Não tenho certeza se por uma limitação de caracteres ou por um glitch, mas nunca saberei o final dessa história. Mas não preciso. A verdade é que essa história é ruim. ChatGPT comete todos os erros que um escritor iniciante comete: repete muitas palavras, não desenvolve os personagens, não cria emoção, não sabe ambientar, não sabe criar suspense, não sabe quase nada do que torna uma obra interessante de ser lida. Ele “leu” Stephen King, sabe que o autor usa elementos sobrenaturais e que já escreveu um livro sobre cachorros possuídos ou demoníacos. Sabe que SK já escreveu sobre um cemitério maldito, um cachorro cujo nome prefiro não mencionar, e juntou ideias para criar uma história sem nenhum apelo.
Em um outro momento eu pedi para criar um diálogo entre um padre alemão e um soldado ateu americano durante a segunda guerra mundial. Ele deveria escrever no estilo literário da autora Geraldine Brooks. Eis o que ele me entregou:
Padre alemão: Olá, soldado. Posso ajudá-lo em alguma coisa?
Soldado americano: Não sei bem, padre. Apenas pensei em parar e conversar um pouco.
Padre alemão: Claro, sempre há tempo para conversar. O que gostaria de compartilhar?
Soldado americano: Bem, eu sou ateu e venho de uma família de ateu. Não entendo por que a guerra acontece se há um Deus bondoso no controle.
Padre alemão: Compreendo sua confusão, meu filho. A guerra é uma tragédia que questiona a fé de muitas pessoas. Mas devemos lembrar que a escolha da guerra e da maldade é do homem, e não de Deus.
Soldado americano: Mas então por que Deus não faz nada para impedir isso?
Padre alemão: Deus dá livre arbítrio aos seus filhos, e permite que tomem suas próprias decisões. Às vezes, essas decisões levam ao sofrimento, mas Deus está sempre presente para nos consolar e nos dar força.
Soldado americano: Não consigo entender isso. Acho que prefiro a ciência e a lógica a uma fé baseada em crenças.
Padre alemão: A fé é uma escolha pessoal, e não há nada de errado em buscar compreensão através da ciência e da lógica. Mas a fé vai além da compreensão humana, e é por isso que é tão poderosa.
Soldado americano: Talvez eu possa entender isso um dia. Só não consigo acreditar que exista algo além daquilo que posso ver e compreender.
Padre alemão: Não se preocupe, meu filho. A fé é algo que pode crescer e se desenvolver ao longo da vida. Eu estou aqui se precisar de mim.
Soldado americano: Obrigado, padre. Apenas precisava de alguém com quem conversar.
Padre alemão: De nada, meu filho. Sempre há esperança e conforto na fé. Não importa o que aconteça na vida, Deus está sempre conosco.
Gosto muito dos diálogos de Geraldine Brooks e sei que ela ficaria horrorizada ao ser comparada com esta… coisa. A construção narrativa é um pouco melhor do que o mini conto ao estilo Stephen King. Podemos ver alguns detalhes sendo acrescentados, argumentações, contrapontos. Ainda assim, não soa natural. É extremamente linear, não há subjetividade, não há revelação de personalidade, não há nada de realmente interessante. O diálogo termina de forma insatisfatória, o conflito entre os dois como inimigos de guerra não é explorado, a própria apologética é fraca, sem substância.
Mas como eu disse, o ChatGPT é como um escritor iniciante. Mas ele não será sempre iniciante, certo? Existe espaço para seu aperfeiçoamento e, quanto mais ele for usado, mais se aperfeiçoará. A questão é: no futuro, seria possível que o ChatGPT escrevesse algo realmente bom? Teremos nas livrarias seções de livros escritos por ele? Dificilmente. Não digo impossível, porque as livrarias já estão abarrotadas de livros tão ruins quanto ele, mas não creio que uma IA seja capaz de construir obras realmente boas. Isso porque um bom livro não é apenas um processo de agrupamento de ideias aleatórias combinadas em uma história. Também não é uma cópia aperfeiçoada do que já foi escrito anteriormente.
Um livro, um bom livro, é resultado da experiência de seu autor. É o fruto de seus amores, ódios, fantasias, fracassos, sonhos, dores, alegrias, esforços. É o sangue vivo pingando de suas veias pulsantes em um papel. E isso nenhuma inteligência artificial jamais conseguirá imitar. Ela não possui emoção real, nunca amou, nunca odiou, nunca sonhou. Não pode falar de forma honesta e tudo o que produzir será sempre artificial, pois partirá da mera observação da vida real que está a sua volta. Ela mesma nunca será real. Nunca terá vida real. Então não pode criar personagens que pareçam reais, nem diálogos que soem naturais, nem histórias que toquem a alma, pois ela não tem uma.
Não temam, queridos escritores. Vocês ainda são necessários. MAS ESPERE!
A inteligência artificial irá sim substituir escritores, não tenha dúvida. Escritores que não sabem usar de sua experiência, que não sabem escrever uma linha verdadeira, como nos ensinou Hemingway, escritores que apenas estão atrás do dinheiro, fama, reconhecimento, escritores que só querem escrever livros usando fórmulas prontas… esses escritores serão substituídos, não tenha dúvidas. Será o fim deles. Sobreviverão apenas aqueles que escrevem com a alma. Aqueles que escrevem para almas. Aqueles que sangram para criar, choram para verter em seus personagens toda dor, amor, sofrimento, sentimento reais que existem primeiramente em si mesmos. Destes sempre precisaremos.



