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Quando Mikhail Tal enfrentou o campeão mundial (e futuro coach de Kasparov, Karpov e Kramnik) Mikhail Botvinnik, poucos sabiam do que ele era capaz. Mas logo nos primeiros jogos, ficou claro que Botvinnik não estava enfrentando um adversário qualquer. Tal, que se tornaria conhecido como o “Mago de Riga”, fazia feitiçaria no tabuleiro.
Um bom jogador de xadrez domina tanto a arte como a ciência. Sim, xadrez, assim como a escrita, é arte e ciência. A ciência é a parte fácil. São as regras, as leis. Elas podem ser imutáveis, como a direção em que as peças podem se mover, ou adaptáveis, como fazer o roque o quanto antes e não perder a dama. Tal dominava a ciência. Assim também Botvinnik. No entanto, Tal também era um artista.
Quando olhamos a famosa partida número 6 de 1960 onde os dois enxadristas se enfrentaram, vemos um exemplo de regras sendo quebradas, lógicas sendo desafiadas, sacrifícios sendo feitos, e um estilo único, uma voz, sendo apresentado para o mundo. Tal sacrifica seu cavalo, sacrifica sua dama, leva seu rei para o centro do tabuleiro e… ganha. Não apenas ganha. Seu adversário desiste. Ele percebe que foi vítima de uma estratégia imbatível e de uma combinação perigosa: Tal sabia as regras tão bem que era capaz de quebrá-las e sair impune.
Assim também era James Joyce, Machado de Assis e John Steinbeck. Assim são dezenas, centenas de escritores que aprenderam as regras bem o suficiente para saber quebrá-las com beleza e maestria.
As regras da escrita são simples. Algumas são imutáveis, a maioria não. Para descobrir quais, o escritor precisa ser um mestre. E isso não se faz apenas com inspiração.
Uma ideia superficial, mas muito presente na cabeça de escritores aspirantes é a de que um livro se escreve num momento de euforia, em um evento quase espiritual onde palavras fluem na ordem correta na mente do autor que precisa simplesmente transcrevê-las e publicá-las. Essa psicografia literária apesar de ser atrativa, é mera fantasia. Livros se escrevem com suor, lágrimas e sangue. Sim, esses são os três principais ingredientes de um livro. Não é tinta, nem papel, muito menos inspiração.
Suor para aprender a escrever e para praticar a escrita.
Lágrimas para derramar sua alma sobre a folha em branco.
Sangue para o sacrifício, o seu e o de seus personagens.
Eu não posso suar em seu lugar, nem chorar em seu lugar, e certamente não quero sangrar em eu lugar. Tenho meus próprios fluidos corporais para me preocupar. Mas através desta newsletter eu vou ajudá-lo a liberar os teus.



Maestral!
Belíssimo texto! Esta ideia de que se deve conhecer as regras para poder quebrá-las está presente no xadrez e na escrita, mas um exemplo visual e cinematográfico se encontra no filme "A origem" no qual o protagonista, interpretado por Leonardo Di Caprio, ensina as regras sobre o que fazer nos sonhos, porém quebra elas durante os eventos do filme.