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Como eu quebrei a costela da minha mãe

e como isso pode te ensinar a fugir do melodrama.

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Jurandir Gouveia
jul 20, 2026
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Eu tinha dezoito anos e estava há meses fora de casa, trabalhando como vendedor de livros de porta em porta, para levantar fundos para a faculdade. A campanha havia me rendido pouquíssimo dinheiro e uma silhueta de quem tinha esquecido o que era almoço, então eu estava muito feliz em voltar para casa e para as panelas, digo, para os braços de minha mãe. No dia em que cheguei em casa, dei nela um abraço tão forte, tirando seus pés do chão, que trinquei uma de suas costelas. Tivemos que levá-la ao hospital, onde a situação ficou ainda pior, porque a equipe médica desconfiou que se tratava de um caso de violência doméstica, e minha mãe passou os momentos seguintes tentando convencer os enfermeiros de que aquela fratura tinha sido causada por excesso de saudade, e que uma denúncia contra mim não seria necessária.

Isso aconteceu há mais de vinte anos e sempre que essa história é relembrada, todos nós rimos do ocorrido, apesar de ser uma situação envolvendo dor, estresse, hospital e uma costela genuinamente quebrada. E o curioso é que essa e tantas outras histórias de pequenas tragédias familiares viram justamente isso com o tempo, apenas material de comédia para as reuniões de família.

Mas a pergunta que interessa a qualquer contador de histórias é: por que essas versões que nós contamos nunca escorregam para o sentimentalismo?

A resposta, que eu também cito em uma das aulas do meu curso Anatomia do Storytelling, é que a forma mais eficaz de emocionar o público consiste em suprimir a emoção dos personagens, e não em expressá-la. Um melodrama acontece quando a obra sente por nós e nos diz o que sentir, enquanto a emoção verdadeira acontece quando o público precisa completar sozinho o que a cena deixou em aberto.

Existem três maneiras práticas de fazer isso e fugir do melodrama.

A primeira é deixar o corpo falar no lugar da palavra. Um personagem que diz “estou arrasado” entrega tudo pronto para o público, não sobra nada para sentir. Agora imagine uma viúva que dobra o casaco do marido que acabou de morrer, repara que a costura do ombro está solta e não fala nada, esse silêncio obriga o espectador a imaginar o que ela está sentindo. Casey Affleck faz isso do começo ao fim em Manchester à Beira-Mar, um filme em que o protagonista nunca desabafa, e quando ele finalmente tema a chance, no reencontro com a ex-mulher, ele foge dela, e nós choramos justamente porque ele não consegue chorar. A ação do personagem vale mais que suas palavras. Também tratamos disso como caracterização por comportamento no Anatomia do Personagem.

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