Conte apenas o suficiente
Um exemplo de Shogun
Eu gostei demais da série Zhogun, da Disney. Sem dúvidas, uma das melhores séries dos últimos tempos, super produção e é uma adaptação de um livro. Fiquei curioso sobre como foi feita essa transposição e resolvi compartilhar com vocês a cena inicial e como você consegue comunicar emoção no texto ou na tela.
Shogun acompanha marinheiros protestantes europeus que chegam ao Japão feudal na tentativa de romper com o monopólio de comércio dos católicos portugueses naquelas terras.
Veja como é a primeira cena, que está no prólogo, do livro:
Veja que no texto, temos um capítulo tipicamente expositivo. Seu objetivo é comunicar a situação da embarcação, o estado de espírito do protagonista (Blackthorne) e o cenário geopolítico. A cena vai continuar depois com interações com a tripulação e o capitão revelando esperança e desespero diante dessa situação.
Ao falar que a maioria morreu, já entendemos que é um cenário de desolação. Ao dizer que o capitão está prestes a morrer, entendemos que há um vácuo de poder, o que já nos faz pensar em Blackthorne assumindo essa posição. A narrativa segue a progressão: onde eles estão (navio) → como eles estão (desolados, com fome, desesperados) → quem é o protagonista → como foram parar ali → qual o cenário macro → e então voltamos ao cenário micro. Nem todas as informações foram dadas. Durante o livro aprendemos muito mais sobre esses elementos, mas temos o suficiente para nos sentirmos à deriva com um grupo de homens desesperados. Exceto Blackthorne, porque ele se coloca como aquele que vai vencer. Sua atitude é o contraste.
Por questão de tempo não vou colocar o restante do capítulo, mas você vai notar abaixo que a versão em vídeo fez o mesmo trabalho de exposição, mas de forma muito mais concisa, porque a mídia dessa história exige concisão. Mas isso não tira sua beleza, porque o que o audiovisual perde em tamanho e beleza literária, ele ganha em capacidade de comunicação visual. E essa cena comunica muito visualmente:
A primeira coisa que vemos são as velas rasgadas. Esse é um navio fantasma. Por um instante parece que estamos vendo uma cena de um filme de terror. E de fato os homens nessa embarcação parecem fantasmas. Largados, magros, fracos. Só depois, temos um texto na tela explicando o contexto geopolítico e então passamos a seguir o protagonista. Vemos o ponto de vista positivo e otimista dele em contraste com o capitão, vemos o cenário de desolação e já passamos a torcer pela sobrevivência dessas pessoas.
O segredo aqui é que eles serão resgatados depois, mas sofrerão muito, a ponto de se perguntarem se não era melhor ter morrido no navio.
Tanto o livro como a série tentam nos fazer sentir pena desses homens, torcer por sua conquista. Veja, a gente não sabe todos os detalhes dessa disputa geopolítica, mas o que sabemos é que esses homens estão sacrificando a própria vida pelo o que acreditam, e isso é admirável. Por isso torcemos por eles, por isso sentimos medo por eles. A partir desse momento, estamos do lado deles.
Como aplicar isso na sua história? Pense em qual a melhor cena e o melhor cenário pra colocar seu protagonista logo no começo a fim de que o público compre sua briga e escolha ficar do lado dele. Use elementos visuais fortes, seja em descrição como em apresentação. Use um contraste claro: no que o seu protagonista se diferencia dos que estão ao seu redor? Um ponto de vista, uma moral, uma virtude, uma direção?
Ainda mais importante. No começo da história, é mais importante que seu público sinta empatia pelo seu personagem do que entenda todas as nuances de seus conflitos.
Boa escrita.





Não só temos a questão da empatia, como do mistério e do suspense. Será que eles vão chegar? Se chegarem, serão bem recebidos? Ou chegarão no local onde pretendiam chegar?
Acho que num vídeo recente do Jurandir no YT, ao falar sobre o tema, é mencionada a série Paradise e como o roteiro se estraga ao revelar demais a respeito do futuro do protagonista que provavelmente será visto na próxima temporada. Mas tem outro exemplo de como essa série fala demais desnecessariamente: o tempo gasto com personagens secundários, contando suas histórias, pra depois simplesmente se livrar deles. SPOILER: o primeiro assassino tem sua história de vida explicada, incluindo romance, mas termina morto; o amigo do protagonista tem toda sua história explicada, mas também acaba morto; eo personagem coadjuvante tem muita história de vida contada, demais mesmo (relação pai-filho por ex em quase nada toca na história principal), e também morre. Ora, o personagem mais "plot twist", psicopata e segundo assassino, não teve sua história contada. Deve ser por isso que não morreu.