Condenação da Memória: apagando histórias, reacendendo debates.
Capitulo 2
“Uma coisa, logo que conhecida, jamais poderá ser desconhecida. Apenas poderá ser esquecida. E, na medida em que domina o tempo, enquanto puder ser lembrada, indicará o futuro. É mais prudente, sejam quais forem as circunstâncias, esquecer, cultivar a arte de esquecer. Lembrar é defrontar o inimigo. A verdade reside na lembrança.” Anita Brookner, Look At Me
No dia 24 de julho de 2021, um grupo de pessoas que, alguns chamarão de manifestantes, outros de vândalos, desceu de um caminhão na Avenida Santo Amaro, em São Paulo, carregando pneus que foram colocados em volta da estátua do bandeirante Borba Gato. Logo em seguida, atearam fogo na vã esperança de que este destruísse a estrutura de argamassa, pedras e mármore. A estátua sobreviveu, mas teve algumas queimaduras de primeiro e segundo graus. A inteligência dos vândalos, porém, era de um aluno do antigo primeiro grau, o tipo de pessoa que ignora quase tudo, principalmente a profundidade de sua própria ignorância.
O grupo de malfeitores acreditava estar vingando o sangue preto e indígena que foi escravizado pelos bandeirantes, os desbravadores do Brasil. Acontece que Borba Gato, apesar de bandeirante, jamais escravizou ou matou qualquer indígena ou preto, diferente de seu sogro, Fernão Dias. Borba Gato teve como missão a descoberta de joias preciosas na região de Minas Gerais e viveu por vinte anos com os índios Mapaxós.
A destruição de obras de arte e livros é uma das formas mais terríveis de cancelamento histórico. Visa-se com isso apagar da memória a existência de um evento que se tornou controverso. Uma prática que não é nova, e em que os romanos eram especialistas.
Há registros de tentativas de apagamento de figuras históricas na Roma Antiga que datam do século 4 a.C. O nome que se dá a tal prática é Damnatio memoriae (condenação da memória). Durante séculos, as elites romanas e o senado (ou seja, o poder vigente) realizaram diversas ações para extinguir da memória a existência de figuras que consideravam inadequadas, traidoras ou incômodas.
Na obra The Art of Forgetting, Harriet I. Flower, professora de história romana na Universidade de Princeton, afirma que a “remoção de foras da lei (antigos cidadãos) da memória comunitária servia para reafirmar a solução política final” e que isso ajudava a extinguir “conflitos partidários” e justificava “quaisquer ações necessárias para retomar a ordem”.
O resultado, porém, raramente era o esperado, muito pelo contrário. Flower afirma que “as memórias das gerações desonradas assombravam os seus sucessores”, mesmo quando eles mesmos usavam sansões de memória ainda mais pesadas contra seus opositores políticos.
Assim, o cancelamento se mostrava como uma ferramenta política poderosa onde opiniões, partidos e pessoas divergentes eram quase extintos a fim de se obter harmonia no governo. Esse tipo de comportamento é muito comum em ditaduras e governos autoritários. Pensamentos divergentes em tais lugares são obliterados pelo medo dos detentores do poder de perderem o domínio sobre as massas. E se parte do governo, como já vimos, é censura.
Além da destruição de estátuas, obras de literatura e moedas que continham referências às pessoas a serem apagadas da memória, Flower detalha outros métodos utilizados:
“As sanções punitivas eram extremamente abrangentes e incluíam represálias contra a família, mesmo contra algumas crianças menores de idade, e contra as mulheres: mães e irmãs eram proibidas de chorar, e novas viúvas eram ameaçadas com a perda do seu próprio status social e econômico. Líderes individuais eram envergonhados e rotulados como traidores, mesmo enquanto as suas famílias perdiam bens".
A condenação da memória destruía não apenas o indivíduo, mas a própria capacidade de subsistência de sua família, condenando mulheres e crianças pelos erros ou opiniões divergentes do patriarca.
Esse mecanismo de governo foi amplamente adaptado em nossos dias pela turba da internet. É como se todas as aulas sobre ditaduras e censuras que esta geração assistiu tivessem sido assimiladas como tutoriais de faça você mesmo. Agora, o governo sai de cena para que o próprio povo crie seus mecanismos de perseguição.
Um exemplo absurdo vem dos Estados Unidos, lugar onde a liberdade de expressão foi basilar na construção da nação, mas que hoje vê professores e jornalistas sendo demitidos ou perseguidos por emitirem opiniões consideradas polêmicas. Mas este não foi o caso do professor de direito da Universidade de Illinois, Jason Kilborn.
Em dezembro de 2020, o professor Kilborn aplicou um teste para os alunos, um teste que ele havia aplicado em anos anteriores. Nele havia uma questão sobre discriminação no trabalho onde a vítima teria sido chamada de “a ‘n____’ and ‘b____’”. A infame “n word” é uma expressão ofensiva para pretos norte americanos que significa negro, enquanto que a letra b se refere a bitch (puta). Neste caso, o professor estava construindo um cenário onde uma funcionária era chamada de negra e puta no ambiente de trabalho e os alunos deveriam montar um caso de defesa para essa mulher.
O absurdo da história é que o professor Kilborn foi demitido por ter mencionado, mesmo que abreviada e censurada, a palavra negra, pois isso era ofensivo demais para os alunos e fazia com que a universidade deixasse de ser um espaço seguro para os sentimentos dos mesmos.
Este não é um caso de um homem que xingou alguém, que postou comentários racistas nas redes sociais ou coisa semelhante. Não, ele apenas citou uma hipótese embasada na realidade. Mesmo assim, perdeu o emprego, impactando o bem-estar seu e de sua família.
Mas por que esse tipo de situação acontece? O que leva uma sociedade progressista, dinâmica e diversa ter tanto medo de palavras e discursos que a desafia?
Na Roma antiga eram os senadores (classe política) e as elites econômicas quem ditavam qual discurso deveria ou não sobreviver à prova do tempo. E todo o progressismo, representatividade e tolerância contemporâneos não são capazes de apagar um traço característico de todas as sociedades, da antiguidade e de agora: aqueles que estão no poder querem manter seu poder. Os senadores romanos temiam que ideias revolucionárias ou reacionárias alimentassem a população contra eles. Seu paternalismo os levava a considerar a população incapaz de pensar por si mesma e fazer suas próprias escolhas. Para isso, um grupo de pessoas, eles e as elites, pessoas iluminadas e de moral superior, seriam as únicas capazes de filtrar os discursos e decidir o que seria perpetuado pela história.
Todos sabem que a história, como contada nos livros, filmes e músicas, é a versão dos vencedores, não dos derrotados. Para manter essa versão, toda linha de raciocínio divergente deve ser eliminada. Apenas dessa forma o povo, a massa disforme que é a sociedade, poderá ser controlada. Aquele que controla a narrativa, controla a história.
A destruição de estátuas e monumentos é uma tentativa pífia e irônica de apagar a própria história. Frederick Engels, um fundador do socialismo, abordou essas questões em sua crítica Anti-Duhring, publicada em 1878, após a Guerra Civil dos EUA que derrubou a escravocracia:
"Foi a escravidão que tornou possível a divisão do trabalho, em larga escala, entre a agricultura e a indústria, e foi graças a ela que pôde florescer o mundo antigo, o helenismo. Sem escravidão, não seria possível conceber-se o Estado grego, nem a arte e a ciência da Grécia. Sem escravidão não teria existido o Império Romano. E sem as bases do helenismo e do Império Romano não se teria chegado a formar a moderna Europa. Não nos deveríamos esquecer nunca que todo o nosso desenvolvimento econômico, político e intelectual, nasceu de um estado de coisas em que a escravidão era uma instituição não somente necessária, mas também sancionada e reconhecida de um modo geral. Podemos, neste sentido, afirmar, legitimamente, que, sem a escravidão antiga, não existiria o socialismo moderno. Não há nada mais para fazer-se que lançar umas quantas frases melodramáticas contra a escravidão e contra tudo o que se lhe assemelha, derramando uma torrente de indignação moral contra semelhante ignominia. Desgraçadamente, nada se consegue com isso, a não ser proclamar o que já todo o mundo sabe: que essas instituições dos tempos antigos já não se ajustam' à nossa época, nem aos sentimentos que essa época forma em cada um de nós. Por tal caminho, não conseguiríamos provar nem uma palavra sobre o modo por que nasceram essas instituições, nem como elas se mantiveram e o papel que desempenharam na História. Neste terreno, por mais paradoxal e mais herético que possa parecer, não temos outro remédio senão dizer que a implantação da escravidão representou, nas circunstâncias em que ocorreu, um grande progresso."
A assustadora conclusão de Engels pode parecer absurda, mas não é. A lógica simples nos ensina que odiamos a escravidão apenas porque vivemos em uma sociedade que evoluiu, e ela só evoluiu graças à escravidão. É claro que Engels, muito menos eu que sou descendente de escravos, não está defendendo uma celebração da escravidão. Ele apenas coloca esse dado da realidade para mostrar que até mesmo os abusos e absurdos do passado construíram a civilização como a conhecemos e nos possibilitaram avançar como sociedade a ponto de sermos capazes de reconhecer toda a crueldade de nosso passado.
Mas não se pode esperar coerência, raciocínio lógico e inteligência da turba cega que compõe os atuais movimentos de cancelamento. Em 2020, durante os protestos contra a morte de George Floyd, integrantes do movimento Black Lives Matter vandalizaram vários monumentos nos Estados Unidos. Um deles foi o The Robert Gould Shaw and the 54th Regiment Memorial[1], um monumento construído em homenagem ao primeiro regimento de soldados pretos norte-americanos. Os vândalos danificaram a escultura e deixaram pichações com os dizeres “BLM” (Black Lives Matter, “Vidas Pretas Importam”), “No Justice, No Peace” (Sem Justiça, Sem Paz) e “Police are Pigs” (Policiais são Porcos).
Por qual motivo um movimento que diz lutar pelos direitos dos pretos vandalizaria um monumento que celebra uma conquista histórica para os afro-americanos? Porque o coronel que está à frente dos soldados era um homem branco. Sim, apenas por isso. Eles não se importaram de estudar a vida desse homem branco. Se tivessem, talvez descobrissem que Robert Gould Shaw nascera em uma família abolicionista, que aceitou liderar o primeiro regimento formado apenas por homens pretos e que lutou para que seus soldados pretos recebessem o mesmo salário que os soldados brancos.
A conclusão que podemos chegar é de que os atuais movimentos identitários são cheios de paixão, mas vazios de instrução.
Poster de recrutamento do Regimento 54, 1863, arquivo do National Park Service.
A indignação é uma força valiosa. Ela é capaz de mudar governos, como vimos acontecer na Primavera Árabe, e de transformar os destinos de uma nação. Mas indignação mal direcional, bruta, seletiva e ignorante não produz nada além de destruição, tanto de bens materiais como de relacionamentos e até mesmo da democracia.
Qual a diferença entre a destruição de monumentos ocidentais por parte de movimentos identitários e a destruição de artefatos arqueológicos e monumentos por parte do Estado Islâmico? Em 2015, o EI divulgou um vídeo de cinco minutos onde seus integrantes destroem estátuas e artefatos arqueológicos do Museu de Mosul, no Iraque[2]. Eles argumentaram que o motivo era porque aquelas estátuas promoviam a idolatria.
Em ambos os casos, o que vemos é uma sanitização da história. Grupos no poder se sentem envergonhados ou ameaçados por figuras, cultura ou costumes do passado, e tentam apagar a existência de tais manchas, purificando a história dos seus pecados. É claro que com isso não estou dizendo que devemos manter estátuas de Hitler, Stalin, ou qualquer outro genocida ou escravista. O filósofo da arte, Arthur Danto, faz uma distinção importante entre memoriais e monumentos:
“Nós construímos monumentos para que possamos sempre nos lembrar, e construímos memoriais para que nunca nos esqueçamos. Monumentos tornam heróis e triunfos, vitórias e conquistas, perpetuamente presentes e parte da vida... O memorial é um recinto especial, extrudado da vida, um enclave segregado onde honramos os mortos. Com monumentos, honramos a nós mesmos.”[3]
Temos em nossos museus estátuas de grandes tiranos do passado, de deuses que exigiam sacrifício de crianças, de ditadores que promoveram massacres. Não as temos para celebrar as vitórias dessas figuras, mas para lembrarmos do que fomos como humanidade, daquilo que fomos capazes de fazer para quem sabe evitarmos repetir os mesmos erros.
Não há nada limpo na história. Assim como não existe plantação de arroz vegana (quem trabalha no campo sabe quantos animais, pequenos e grandes, precisam sofrer ou até morrer para que um campo de arroz seja construído) também não existe construção de nação livre de muitos pecados.
A destruição indiscriminada da memória, a sanitização de nosso passado, em nada contribui para nosso futuro e, quanto ao presente, serve apenas para aplacar a consciência culpada de uma sociedade mimada, um grupo que se sente no direito de apagar da memória toda lembrança incômoda de que ele possui privilégios que seus antepassados não tiveram.
O problema é que o cetro troca de mão com facilidade. Opressores se tornam oprimidos e oprimidos oprimem com cetro de ferro seus inimigos. A Idade Média deveria ter ensinado essa lição a todos nós.
[1] https://artsfuse.org/205108/visual-arts-commentary-bostons-historical-memorial-to-black-lives-vandalized/
[2] https://www.theguardian.com/world/2015/feb/26/isis-fighters-destroy-ancient-artefacts-mosul-museum-iraq
[3] DANTO, A. C. et al. Wake of art: Criticism, philosophy, and the ends of taste. Abingdon, Inglaterra: Routledge, 2013, pág. 153.



