Conselhos básicos de Margaret Atwood
A rainha da distopia tem alguns conselhos para dar
O Substack ganhou nesta semana uma escritora de peso para suas newsletters. Margaret Atwood se junta a nós para iluminar-nos com seus sábios conselhos. E ela começou bem. Em um artigo publicado hoje, Atwood fala sobre os dois elementos básicos (mas esquecidos por muitos escritores aspirantes) da escrita: quem é o leitor de um romance, e o que é um romance.
O leitor de romance (entenda romance como estrutora narrativa que se difere de não ficção, e não como gênero) espera ler um romance. Segundo Atwood, isso quer dizer que:
Eles vão querer ser surpreendidos, encantados, emocionados e informados. Eles esperam personagens que convençam e um enredo que os faça querer descobrir o que acontecerá a seguir. Eles vão querer que o romance prenda sua atenção. Pelo menos. Eles estão dando a você o tempo deles. Você precisa levá-los a sério.
Levar a sério o leitor é respeitá-lo. É escrever pensando nele, em sua experiência, no storytelling, na jornada, na emoção produzida em cada página (sim, cada página deve produzir uma emoção). Depois de entregue ao leitor, também devemos respeitar sua opinião, ouvi-lo, dialogar com ele a fim de aprender quem é o seu público e quem não é. Khaled Hosseini disse que devemos sempre escrever para o público de uma pessoa, e essa pessoa é você mesmo. Ao fazer isso, você encontra uma comunidade de pessoas parecidas com você, de pessoas que pensam parecido com você, e assim você constrói sua audiência.
O outro conselho de Atwood, um pouco mais ácido, é sobre o que é um romance. Eis as opções que ela apresenta:
A) Um folheto político.
B) Um monte de coisas que interessaram ao autor e que o autor jogou na página sem digerir.
C) Um sermão.
D) Problemas não resolvidos da infância do autor que o autor está tentando consertar agora via maestria atrasada.
E) Uma mensagem do mundo espiritual.
F) Uma obra de arte.
Atwood é clara. A única resposta certa é a letra F. Sim, um romance pode ocasionalmente conter esses outros elementos. Mas um romance é acima de tudo uma obra de arte. E isso significa que um romance deve ter: Estrutura, Textura, Personagem, Enredo e Tom.
Estrutura. O que acontece e quando acontece? Arranjo linear? Flashbacks? Começar no meio? Circular? Começa com um cadáver e depois diz como chegou a ser um? Narração simultânea de vários personagens? Um morto narra? Muitas formas de estruturar e organizar o tempo.
Textura. Ao nível da frase, do parágrafo, da página. Evitando repetições desajeitadas, obviamente não intencionais, explicações prolixas, figuras de linguagem piegas, etc. A textura inclui também a “voz” do romance. Quem está contando? Eles xingam muito? etc.
Personagem. Acreditamos que essas pessoas fariam e diriam isso? Um personagem em um livro é: O que ele diz; O que ele faz; O que ele pensa e sente. O que os outros personagens dizem e fazem em relação a eles. O que o autor pode nos dizer, se um autor onisciente estiver presente. Isso é tudo que você tem.
Enredo: O que acontece. Também: suspense. Se pudermos prever tudo com antecedência, perdemos o interesse.
Tom geral. Qual é o modo? (ou seja, a chave musical). As chaves podem variar dentro de um romance, mas deve-se pelo menos estar consciente delas. Irônico? Romântico? Trágico? Cômico? Uma mistura?
Atwood encerra seu artigo com outra questão que é realmente necessária: um romance, como obra de arte, deve entreter ou instruir? De acordo com ela, ambos. Se apenas instrui, se torna um sermão ou um manual, ou um livro de não ficção. Se apenas entretém, se torna no que ela chama de “leitura de praia”, ou seja, um livro que será esquecido assim que o leitor entrar na água.
Nenhum leitor quer receber um sermão do livro que está lendo, seja ele um sermão espiritual, moral ou político. A espiritualidade, moralidade e visão política de seu autor estarão presentes, mas se o autor é mestre de seu ofício, ele saberá colocar suas perspectivas escravas da história, mas nunca deixará sua história escrava de sua religião, moral ou política.
Livros que apenas entretém estão acumulados nas prateleiras dos sebos e no Google Docs de autores aspirantes. Se o autor não possui ele mesmo uma visão forte de mundo, uma cosmovisão específica, sua obra soará superficial e vazia. O elemento mais importante de uma obra é seu autor, então este é o principal lugar para melhorias: ter uma visão clara de mundo, uma perspectiva da realidade, uma filosofia de vida, uma revolta (todos os grandes autores possuem uma), isso ajuda a desenvolver a personalidade do autor. Tal personalidade transbordará em sua obra se ele usar as ferramentas corretas.
Que Atwood continue nos iluminando com sua sapiência e, se você lê em inglês, não esqueça de se inscrever em seu substack. Aproveita que está de graça.



