Curso de Enredo da Wesleyan University - parte 1
O curso "Creative Writing: The Craft of Plot", oferecido pela Wesleyan University, é uma introdução básica, mas interessante, sobre a arte de contar histórias.
Após fazer todas as Masterclasses disponíveis, ler vários livros de escrita e também apostilas, decidi dar uma chance para o curso de escrita criativa da Wesleyan University. Esse curso está diponível através do Coursera e é pago, mas aqueles que quiserem podem auditar gratuitamente.
O enredo, ou plot, é o elemento mais básico de uma história. É aquilo de que se trata, a história com suas conexões.
A primeira aula fala sobre a Pirâmide de Freytag.
O romancista Gustav Freytag desenvolveu essa pirâmide narrativa no século 19 como uma descrição de uma estrutura que os escritores de ficção usaram por milênios.
A Pirâmide de Freytag descreve os cinco estágios principais de uma história, oferecendo uma estrutura conceitual para escrever uma história do início ao fim. Essas etapas são:
Exposição
Ação Ascendente
Clímax
Ação Descendente
Resolução
Aqui está a estrutura de cinco partes da Pirâmide de Freytag em forma de diagrama.
1. Pirâmide de Freytag: Exposição
Sua história tem que começar em algum lugar, e na Pirâmide de Freytag, ela começa com a exposição. Esta parte da história apresenta principalmente os principais elementos ficcionais – cenário, personagens, estilo, etc. Na exposição, o único foco do escritor é construir o mundo em que o conflito da história acontece.
A duração de sua exposição depende da complexidade do conflito da história, da extensão do mundo que está sendo escrito e da preferência pessoal do escritor. O Senhor dos Anéis de Tolkien é forjado com história de fundo e exposição, muitas vezes abrangendo capítulos de pura construção de mundo. Em contraste, CS Lewis oferece muito pouca exposição na série As Crônicas de Nárnia , optando por envolver o conflito com a construção do mundo. Ainda assim, quer sua exposição tenha cinquenta páginas ou uma frase, use esta parte da história para atrair os leitores. Torne seu mundo fictício tão real quanto este.
Sua exposição deve terminar com o “conflito” – o evento que inicia o conflito principal da história.
2. Pirâmide de Freytag: Ação Ascendente
A ação ascendente explora o conflito da história até seu clímax. Muitas vezes, as coisas “pioram” nessa parte da história: alguém toma uma decisão errada, o antagonista fere o protagonista, novos personagens complicam ainda mais a trama, etc.
Para muitas histórias, a ação ascendente ocupa a maior quantidade de páginas. No entanto, enquanto esta parte do livro explora o conflito e as complicações da história, a ação ascendente deve investigar muito mais do que apenas o enredo da história. Na ação ascendente, o leitor geralmente obtém acesso a peças-chave da história de fundo. À medida que o conflito se desenrola, o leitor deve aprender mais sobre os motivos dos personagens, o mundo da história, os temas que estão sendo explorados, e você também pode querer prever o clímax.
Finalmente, quando você olha para a ação ascendente da história, deve ficar claro como cada ponto da trama se conecta ao clímax e à consequência da história. Mas primeiro, vamos escrever o clímax.
3. Pirâmide de Freytag: Clímax
É claro que todas as partes da sua história são importantes, mas se há uma parte em que você realmente deseja acertar em cheio, é o clímax. Aqui, o conflito da história atinge seu ápice e descobrimos o destino dos personagens principais. Muitos escritores entram no clímax de suas histórias acreditando que elas precisam ser curtas, rápidas e cheias de ação. Embora algumas histórias possam exigir esse estilo de clímax, não há uma fórmula rígida quando se trata de escrever o clímax. Pense no clímax como o ponto de “virada” na história – o conflito central é abordado de uma forma que não pode ser desfeita.
Depende de você decidir se o clímax é apenas uma cena ou vários capítulos, mas lembre-se de que seu clímax não é apenas o ponto de virada na estrutura do enredo da história, mas também seus temas e ideias. Esta é a sua oportunidade de comentar sobre qualquer conceito que conduza a narrativa da sua história, dando ao leitor uma ideia emocional.
4. Pirâmide de Freytag: Ação Descendente
Na ação descendente, o escritor explora as consequências do clímax. Outros conflitos surgem como resultado? Como o clímax comenta os temas centrais da história? Como os personagens reagem às mudanças irreversíveis feitas pelo clímax?
A ação descendente da história costuma ser a parte mais complicada de escrever. O escritor deve começar a amarrar as pontas soltas do conflito principal, explorar conceitos e temas mais amplos e levar a história a alguma forma de resolução, mantendo o foco no clímax e suas consequências. Se a ação ascendente afasta a história do “normal”, a ação descendente é um retorno a um “novo normal”, embora a ação ascendente e descendente pareçam dramaticamente diferentes.
Ao mesmo tempo, a história ainda deve envolver o leitor. Ao escrever a ação descendente da história, certifique-se de expandir o mundo da história, os mistérios que estão dentro desse mundo e tudo o mais que torna sua história atraente.
5. Pirâmide de Freytag: Resolução/Desenlace
Como você termina uma história? Uma das partes mais frustrantes da escrita é descobrir onde a narrativa termina. Teoricamente, a história pode continuar para sempre, especialmente após um clímax que altera a vida, ou mesmo se a história se passa em um mundo alternativo.
A resolução da história envolve amarrar as pontas soltas do clímax e na ação descendente. Às vezes, isso significa seguir as consequências da história até uma conclusão assustadora - o protagonista morre, o antagonista escapa, um erro fatal tem consequências fatais etc. Outras vezes, a resolução termina com uma nota mais leve. Talvez o protagonista aprenda com seus erros, comece uma nova vida, ou então perdoe e corrija o que quer que tenha incitado o conflito da história. De qualquer forma, use a resolução para continuar seus pensamentos sobre os temas da história e dê ao leitor algo em que pensar depois que a última palavra for lida.
EXEMPLO
No curso, o professor utiliza a saga Harry Potter para exemplificar a Pirâmide de Freytag. Todavia, como eu sou mais Tolkien do que J.K. Rowling, prefiro usar o Hobbit nesta explicação.
EXPOSIÇÃO
A história começa apresentando o hobbit, Bilbo Bolseiro. Tolkien nos fala um pouco do condado, da toca de Bilbo e de sua família, para que consigamos entender que dentro do hobbit há tanto o temor quanto a coragem, a depender de qual lado da família for mais forte.
AÇÃO ASCENDENTE
Assim que os anãos (sim, são anãos, não anões) chegam, a ação começa a acontecer. Bilbo tem de escolher ficar onde está ou seguir na jornada. Ao escolher a aventura, ele se depara com muitos perigos, e cada uma dessas situações dá a Bilbo a oportunidade de crescer, e com isso ele vai sendo preparado para o clímax.
CLÍMAX
Após enfrentar todos os perigos da jornada, Bilbo se depara com o objetivo final da aventura, o dragão. O clímax é o roubo e a derrota do dragão.
AÇÃO DESCENDENTE
Agora lidamos com a consequência do clímax. Com a morte do dragão, exércitos marcham em direção à montanha para roubar o ouro. É a batalha dos cinco exércitos. É também aqui que Thorin perdoa Bilbo e tem seu momento de redenção.
RESOLUÇÃO
Bilbo retorna para a sua casa no Condado.
É interessante notar que, apesar de o Condado ser exatamente o mesmo, Bilbo já não é mais o mesmo. Da mesma forma acontece com seu sobrinho, Frodo, ao retornar para o Condado ao final de sua aventura. É o novo normal, a nova realidade.
Personagens
Em seguida, aprendemos a como criar personagens interessantes e que ajudam no desenvolvimento do enredo. Ao criar um personagem, devemos responder a 5 perguntas chaves:
O que eles querem? Todos os bons personagens querem algo, mesmo que seja algo simples como um copo d’água. É diferente do personagem que precisa de algo. Quando o personagem precisa de algo, é destino. Mas quando ele deseja algo, é força de vontade.
Quais são as suas fraquezas? Personagens interessantes precisam ter defeitos e fraquezas. Um personagem perfeito é irreal e tedioso. Imagine se o Superman não fosse vulnerável à kriptonita?
De onde eles são? Entender de onde uma pessoa veio ajuda a entender o que essa pessoa quer. Ele foi criado em uma boa família? Morou nas ruas? Era do campo ou da cidade? Sofreu bullying na escola?
Para onde estão indo? Se eu sei de onde meu personagem veio, quais são suas vontades e quais suas fraquezas, então eu sei qual o caminho que ele vai tomar, qual direção vai seguir, como vai enfrentar as dificuldades quando a ação ascendente trouxer problemas pra ele.
O que seus personagens fazem para te surpreender? Quando você escreve personagens que parecem reais, eles passam a se comportar como seres humanos reais, fazendo coisas que você não esperava. Não controle todas as reações de seus personagens, mas dê a eles espaço para serem autênticos e te surpreender.
Ação ascendente são os obstáculos no caminho para seu personagem conseguir aquilo que ele quer. Esses obstáculos são mais interessantes se são desafiadores para as fraquezas de seu personagem. Por isso toda a história com o Superman precisa ter kriptonita, do contrário não vai tocar em sua fraqueza. Se seu personagem sofreu bullying na infância, um dos obstáculos pode ser confrontar o seu bully da infância, ou defender uma criança que está sofrendo bullying. Assim você conecta os elementos da história.
Estrutura do Enredo
Emma Mott é uma autora americana que escreveu um livro sobre a arte de escrever chamado Bird by Bird. Nele, ela descreve uma conversa que teve com a romancista Alice Adams sobre uma estrutura única de cinco atos que Alice usa chamada ABDCE.
A de AÇÃO: Uma boa história deve começar com o personagem fazendo algo, não pensando em algo.
B de BACKGROUND: O pano de fundo é o contexto, aquilo que aconteceu com o personagem antes da história começar. É o que vai nos ajudar a entender as ações do personagem durante a história.
D de DESENVOLVIMENTO: É aqui que está o recheio da história. É a ação ascendente e todos os conflitos que seu personagem vai ter que enfrentar para conseguir o que quer.
C de CLÍMAX: É o ponto alto da história, tem que ser tão importante que mude a vida das pessoas.
E de ENDING: É o final, onde nossos personagens se tornaram em outras pessoas, eles estão diferentes de quando começamos.
Vamos ver como essa estrutura está presente em um dos maiores romances da história, Romeu e Julieta de Shakespeare.
A - Ação, Romeo é levado por seu primo Benvolio a um baile dos Capuletos onde conhece e instantaneamente se apaixona por Julieta.
B- O pano de fundo, a família de Romeu, os Montecchios e a família de Julieta, os Capuletos, são inimigos jurados.
D- Desenvolvimento, Romeu e Julieta, após um namoro turbulento, decidem se casar. O primo de Julieta, Tybalt, furioso por Romeu ter entrado sorrateiramente na festa dos Capuletos, o desafia para um duelo. Romeu se recusa a lutar, então seu amigo Mercutio aceita o duelo em nome de Romeu. Tybalt mata Mercutio, então Romeo mata Tybalt e é exilado.
C- O clímax, Romeu retorna do exílio e vê Julieta na tumba. Pensando que ela está morta, ele se mata. Julieta acaba por não estar morta, apenas em coma devido a uma poção fornecida a ela por um frade. Quando ela acorda, descobre que Romeu está morto e se mata também.
E- Fim. O frade que deu a Julieta sua poção conta toda a história para ambos os Montecchios e os Capuletos, que concordam em finalmente acabar com seu rancor.
Nem todos os escritores sentem a necessidade de montar a estrutura da história previamente. Muitos o fazem de improviso, como no caso de Stephen King, mas é um jogo arriscado e que demanda muito trabalho na edição a fim de deixar a história fluida e coerente.
No próximo artigo continuaremos com como criar uma cena.




