Doritos, um quatrilhão de moscas, e por que Colleen Hoover é a autora mais vendida do mundo
E por que isso é absurdo
Não estou em dia com minhas leituras. “Os Versos Satânicos”, de Salman Rushdie, me consumiu por mais de um mês e eu estou absurdamente atrasado com minhas leituras de 2023, tendo que ouvir audiobooks pra conseguir bater minha meta.
Mas ainda assim encontrei um tempo para dar uma chance para a autora mais vendida do planeta Terra: Colleen Hoover. Só na lista de mais vendidos do Brasil, ela tem 6 livros.
Obviamente deve ser algo bom, deve ser uma literatura incrível, uma autora com ferramentas e capacidade acima da média, uma grande artista, o ápice da união entre Fernando Pessoa e Machado de Assis.
NÃO.
Eu não diria que ela é uma autora horrível. Li autores horríveis o suficiente para dizer que ela é, no máximo, pobre. Não há nenhuma outra palavra que a defina melhor. Mas então, por que ela faz tanto sucesso? Já falarei sobre isso, mas antes, alguns exemplos da pobreza de sua escrita extraídos de seu best seller It Ends With Us (É Assim que Acaba):
Ler sobre as coisas que meu pai fazia com minha mãe me deixa meio mal-humorada.
Ler sobre Atlas me deixa meio triste.
Tento dormir e pensar em Ryle, mas toda a situação me deixa meio zangada e triste.
O canto da boca de Atlas se contrai, e não sei se ele tentava não sorrir ou não franzir o rosto.
Ele se vira completamente para mim.
— Pode acreditar em mim, Lily. Sei que não foi uma trepada por pena. Eu estava lá.
Ele sai pela porta, e suas palavras me derrubam na cadeira.
Mas... minha cadeira não está mais no lugar. Ainda está do outro lado da sala, e agora estou no chão.
— Quando tenho tempo, algumas garotas satisfazem minhas necessidades. Não estou precisando de nada nesse departamento... se é o que está perguntando. Mas nunca me senti atraído pelo amor. Sempre foi mais um fardo que qualquer outra coisa.
Eu queria pensar assim. Minha vida seria tão mais fácil...
— Que inveja! Acredito que exista um homem perfeito para mim. E vivo me decepcionando, porque ninguém corresponde a meus padrões. Parece que estou em uma busca infinita pelo Santo Graal.
— Devia testar meu método — aconselha ele.
— Qual?
— Sexo casual.
Ele ergue a sobrancelha, como se fosse um convite.
Ainda bem que está escuro, porque meu rosto parece em brasas.
— Eu nunca conseguiria transar com alguém sabendo que não daria em nada — argumento, em voz alta, mas minhas palavras carecem de convicção.
Ele inspira fundo e devagar, depois se deita.
— Você não é esse tipo de garota, né? — pergunta ele, um pouco desapontado.
Também me sinto assim. Nem sei se o rejeitaria se ele tentasse alguma coisa, mas acho que acabei de frustrar essa possibilidade.
— Se você não transaria com alguém que acabou de conhecer... — Seus olhos encontram os meus de novo. — Até onde você iria?
— Por favor, Lily — pede Ryle, com uma risada autodepreciativa. — Por favor, transe comigo. — Ele está me encarando com um olhar de cachorro pidão e um sorriso esperançoso e ridículo. — Quero tanto, tanto você, e juro que, se transar comigo, nunca mais nos falamos. Prometo.
Ver um neurocirurgião literalmente de joelhos, implorando para transar comigo me
convence. É muito ridículo.
A leitura destas citações deveria ser o suficiente para convencer qualquer leitor a evitar os livros de Colleen Hoover. Cringe é uma palavra boa para descrever seus livros, mas acredito que Doritos é ainda melhor (explico mais abaixo). São superficiais, fúteis, sem personalidade, forçados, deslocados da realidade, com personagens impossíveis, com emoções adolescentísticas (sim, inventei uma palavra) e que replicam o mesmo conceito de fragilidade emocional vez após outra. Quantas mulheres no mundo real estão dispostas a fazerem sexo com um cara que implora por sexo prometendo que nunca mais falará com ela depois? A última frase da citação resume o livro: é muito ridículo.
Existem cerca de 17 milhões de moscas para cada ser humano, o que dá aproximadamente mais de 100 quatrilhões de moscas pelo mundo afora. Todas elas gostam de fezes.
Mas de onde vem a popularidade desta autora? Bem, um dos motivos é o TikTok. E neste momento, deve ter algum tiktokero em algum lugar falando “Meus Deus, parem de falar mal da melhor rede social que já existiu. Aproveita e veja minha dancinha”.
Mas calma. Eu vou explicar. Eis minha análise baseada na minha leitura de Colleen Hoover, minha experiência como terceirizado da TikTok (um dos meus trabalhos é análise de risco de vídeos de TikTok e melhoria da tradução automática da plataforma, então algumas horas do meu dia tenho meu cérebro derretido vendo vídeos dessa plataforma) e da leitura de diversas entrevistas, artigos e críticas especializadas:
1- Os temas de Colleen Hoover são trends do TikTok. A plataforma tem tentado mudar essa visão, mas boa parte de seus vídeos estão relacionados ao triste mundo das doenças mentais de adolescentes. Alguns de seus principais trends estão relacionados a vídeos de abuso doméstico, pensamentos suicídas, automutilação, relacionamentos abusivos e tóxicos, entre outros assuntos que enchem os olhos de Colleen. Por isso ela escreve sobre esses assuntos.
2- TikTok é a plataforma das lágrimas. Lembro-me que uma amiga estava considerando pedir o divórcio alguns anos atrás e seu marido mandava pra ela selfies dele chorando. Era ridículo pensar que o cara começava a chorar e o primeiro instinto era pegar um celular e tirar uma foto do rosto inchado e cheio de lágrimas. Mas no TikTok isso é o ápice da experiência humana. Vídeos chorando (82% das vezes são lágrimas de crocodilo) geram vizualizações e, principalmente, engajamento. Seja por narcisismo, seja por carência, o autor do vídeo conseguirá comentários de pessoas dando apoio e dizendo que pessoa maravilhosa ele é. Collen Hoover é uma excelente produtora de lágrimas artificiais. O TikTok está cheio de vídeos de pessoas chorando por personagens, chorando por memórias pessoais despertadas pelas situações dos livros, chorando, chorando, chorando.
3- TikTok é a plataforma da superficialidade. Um artigo da GQ explorou muito bem este conceito ao explicar que, na plataforma, mais importante do que ser um leitor, é parecer um leitor. Gravar com um livros atrás de si é mais bonito. Dizer-se leitor é chique. Mas ler não é fácil. Aí entram os livros de Colleen. São fáceis de ler, rápidos de terminar, mas ao mesmo tempo parecem grandes. Isso acontece porque são repletos de diálogos e de quebras de linha que fazem com que o texto ocupe bastante espaço. Então o leitor tem a sensação de ter lido um livro grande, quando na verdade acabou de ler um pacote de Doritos, 70% era vazio.
Aliás, Doritos é um bom apelido para a autora, já que seus livros não são apenas vazios de texto, mas de contexto, descrições, ambientação, originalidade, voz, diálogos inteligentes e de qualquer outra coisa que torna um autor alguém digno de ser lido e admirado.
4- Tiktok é a plataforma da velocidade e do trend. Para fazer sucesso lá, uma pessoa tem que postar diversas vezes por dia, e como não acontecem tantas coisas interessantes todos os dias, ela tem que inventar assunto ou aproveitar os trends. Trend é quando muitas pessoas estão falando sobre o mesmo assunto. TikTok é a plataforma menos original de todas, pois é mais fácil fazer sucesso repetindo uma dança, uma encenação, uma brincadeira, do que produzindo algo novo. Então, quando um livro da Colleen virou trend, todos os outros usuários sentiram-se na obrigação de falar dela, comprar seus livros e mostrá-los, chorar, fazer dancinhas com o livro, afinal era isso que os outros estavam fazendo, então era isso que deveria ser feito. Assim, em um movimento redundante, Coleen se torna a rainha do TikTok.
5- TikTok é a plataforma das meninas. Sim, tem meninos lá, mas não são a maioria. Meninas, jovens e mulheres são as que mais usam a plataforma com suas dancinhas, maquiagens, vlogs e encenações. Considere-se também que mulheres constituem o maior grupo de leitores, então Collen Hoover fala para mulheres. Ela escreve sobre problemas característicos das mulheres, as dores femininas. Fala sobre trauma, o que lhe rendeu o título de trauma porn, uma expressão para autores que glorificam traumas. Colleen é para as adolescentes e jovens o que 50 Tons de Cinza foi para as mulheres de meia-idade.
Sim, Collen Hoover é popular. Mas popular não quer dizer bom. 100 quatrilhões de moscas, lembra? Mas alguém deve estar dizendo: Ah, mas pelo menos as pessoas estão lendo, isso é bom, não é?
NÃO.
O mesmo argumento poderia ser usado para várias coisas. Muitas pessoas estão comendo apenas fast food, enchendo suas veias de gordura, sal e açúcar, ficando obsesas e diabéticas: “Ah, mas pelo menos elas estão comendo, isso é bom, não é?”. Bom pra quem? Pra essas pessoas não é nada bom. Elas estão deteriorando seu organismo. E no caso dos livros, estão deteriorando sua mente.
Pra quem é bom? Para o MacDonald, assim como para algumas editoras especializadas em literatura pobre. Não, a leitura de Colleen Hoover não será a porta de entrada para Tolstói, assim como comer MacLanche não é a porta de entrada para brócolis. A tendência é a pessoa gostar mais do mesmo, ou piorar.
O Romantismo, como movimento literário, produziu tantos livros ruins que surgiu um movimento de reação, o Realismo, para se opor a uma série de ideias infantis e superficiais que alguns autores românticos estavam difundindo. O Romantismo propusera tanto sentimentalismo, idealização, elitização e sexismo, que ao redor do mundo surgiram autores que se opuseram a esse movimento. Da reação surgiu Flaubert, Eça de Queiroz, Machado de Assis, Tolstói, Dostoiévski, Dickens e muitos outros gênios.
Talvez Colleen Hoover e semelhantes tenham um propósito histórico. Talvez eles existam apenas para que novos gênios da literatura surjam. Deus sabe que estamos precisando deles hoje em dia.




Que paulada! haha