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Ecos do Passado na Cultura do Cancelamento

Capítulo 1

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Jurandir Gouveia
jan 14, 2024
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O sol escaldante banhava o antigo Egito. A vida vinha de dois berços. Do Lago Tana, nas alturas etéreas da Etiópia, emergia o Nilo Azul. Suas águas, tingidas com a profundidade do céu, dançavam através de vales e montanhas. Longe, na quietude sagrada dos Grandes Lagos, nascia o Nilo Branco, espelhando o céu em suas águas claras. Os dois, filhos de diferentes berços da natureza, encontravam-se em Khartoum para formar o majestoso Rio Nilo. Ele era a vida do Egito, e às suas margens as centenárias tamareiras eram testemunhas de tradição e resiliência daquele povo que, por séculos, foi um dos mais poderosos do planeta.

Nesse cenário deslumbrante, o Egito estava sob o reinado da faraó Hatshepsut, uma mulher extraordinária e ambiciosa. Sua ascensão ao poder não foi convencional. Originalmente regente de seu jovem enteado, Thutmose III, Hatshepsut transcendeu este papel, adotando gradualmente o título e os símbolos de um rei. Ela empregou uma mistura de estratégia, cerimônia religiosa e reivindicações de direito divino para solidificar seu lugar como faraó. Durante seu reinado, que desafiou as normas de gênero da época, o Egito conheceu uma era de prosperidade sem precedentes. Sob sua liderança, o país floresceu, tornando-se uma potência comercial e experimentando um período de paz e estabilidade.

Porém, conseguir uma coroa foi a parte fácil. Manter uma cabeça sobre o pescoço foi a parte difícil. Ser uma mulher liderando homens no Egito Antigo demandou força e sabedoria. Se ninguém estava disposto a respeitar uma mulher, talvez eles pensariam duas vezes antes de desafiar uma deusa. Então, para legitimar seu reinado, ela se autoproclamou filha do deus Amon e encomendou a construção de templos e monumentos majestosos, como o Templo Mortuário de Deir el-Bahari, que resistem até hoje como testemunhas de sua grandeza e do significado do nome Hatshepsut, “A mais importante das nobres damas”.

Em um dos cantos mais sombrios dessa época, havia uma figura que seria eternamente ligada a Hatshepsut: Moisés. Embora as evidências históricas e arqueológicas não sejam conclusivas, algumas teorias sugerem que Moisés, o profeta bíblico, pode ter vivido no Egito durante o reinado de Hatshepsut e que ela poderia até mesmo ter sido a princesa que o adotou, conforme mencionado na Bíblia.

A ligação entre Moisés e Hatshepsut nos leva a uma passagem intrigante do Êxodo 32. Neste capítulo, após descer o Monte Sinai com as tábuas da lei em suas mãos, Moisés se depara com o povo de Israel prostrado em adoração diante de um bezerro de ouro. Em sua fúria, Deus diz ao profeta que destruiria o povo e construiria uma nova nação a partir do profeta. Moisés, porém, intercede pelo povo e diz:

“Agora, eu te imploro, perdoa-lhes o pecado; se não, risca o meu nome do teu livro que escreveste". Êxodo 32:32

O que Moisés estava querendo dizer com isso? E o que esse pedido nos revela sobre a atual cultura de cancelamento?

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