Escritores maduros roubam
O poeta americano, T. S. Elliot, disse há mais de 100 anos: "Os poetas imaturos imitam; os poetas maduros roubam." Mas você precisa saber roubar.
Criatividade é uma coisa estranha. Talvez a pergunta mais difícil para um escritor responder seja: “De onde você tira suas ideias?”. A gente nunca sabe a resposta. Cansado de ouvir essa pergunta, Neil Gaiman passou a responder que ele as compra em um antiquário em Londres.
A verdade é que as ideias parecem surgir de forma quase milagrosa em nossa cabeça. Como se elas viessem… do nada. Mas isso não é verdade. O Antigo Testamento usa duas palavras hebraicas para “criar”.
A primeira palavra é Bara (בָּרָא) - Significa criar a partir do nada. Essa é uma palavra que os escribas usavam apenas quando Deus era o sujeito, pois para os judeus ninguém mais pode criar do nada, apenas Deus.
A segunda palavra é Asah (עָשָׂה): Esta palavra tem um significado mais amplo e pode ser traduzida como "fazer", "produzir" ou "criar". Ela é usada em contextos onde algo é feito a partir de algo já existente. É só esta palavra que pode ser usada por um ser humano.
Milhares de anos depois dos antigos profetas morrerem, foi a vez de Lavoisier de proclamar:
"Em todas as operações da arte e da natureza, nada é criado… nada acontece além de transformações e modificações"
Pense em todos os livros que você já leu, todos os filmes que viu, todas as músicas que ouviu. Algum desses itens era algo completamente diferente de tudo o que já existiu? Certamente não. O ser humano sequer é capaz de pensar em algo que não existe. Não conseguimos, por exemplo, imaginar uma cor que não exista. Isso porque nós trabalhamos com referências.
Pense em Tolkien. Como ele conseguiu criar um mundo tão complexo e inovador como a Terra Média? Você pode ser tentado a dizer: Ele inventou, tirou de sua cabeça! Mas não dá pra você tirar algo de uma sacola vazia. Antes de ser capaz de tirar essas ideias de sua cabeça, ele primeiro a encheu com todas as referências necessárias para seu processo criativo.
E aqui está um ponto em que muitos escritores falham. Muitos pensam que, para escrever sobre fantasia, por exemplo, precisam ler muita fantasia. Mas se você tiver apenas essas referências povoando sua mente, você não conseguirá tirar nada de inovador dela. Provavelmente sua história será muito parecida com outras fantasias que já foram feitas. Mas se você possui referências diferentes, como Tolkien, sua história se torna mais rica. Tolkien, como professor de literatura, leu os clássicos gregos, a Bíblia, a literatura clássica americana e inglesa, as mitologias nórdicas e celtas, e George MacDonald, que Tolkien abertamente falava ser uma inspiração para ele.
A maior surpresa que tive ao traduzir Phantastes foi descobrir que MacDonald, a maior influência de Tolkien, tinha como referência para sua obra as lendas do Rei Artur e de Merlin. Mesmo assim ele distorceu a realidade daquela história de cavaleiros e a encheu com elementos incríveis de uma floresta mágica.
Cervantes também distorce as histórias de cavaleiros, mas para criar uma história completamente diferente, com profundidade e riqueza sem iguais.
Austin Kleon ficou famoso por seu livro: Roube Como Um Artista. Nele, Kleon nos ensina os segredos por trás da inspiração e criatividade.
Se você copiar algo de alguém, isso é plágio. Mas se você copia de 10 pessoas diferentes e transforma em algo diferente, você se torna inovador. A imagem abaixo ilustra o processo criativo e a diferença entre o “roubo bom” e o “roubo ruim”:
O processo criativo involve o uso adequado de ferramentas de transformação das referências em algo que seja substancialmente diferente e, de preferência, melhor. Quando Steve Jobs criou o primeiro smartphone, ele não partiu do nada. O produto mais inovador das últimas décadas é apenas a junção de dois produtos que já existiam: o celular e o computador.
Por isso eu sempre insisto que os escritores busquem diferentes fontes de inspiração para tentar criar algo único. Pense na série de livros A Torre Negra, de Stephen King. Ele não criou apenas um livro de fantasia comum, como estamos acostumados. Ele misturou a fantasia com o velho oeste e incorporou diversos elementos que não eram associados à fantasia como a conhecíamos. Ele também incorporou influências literárias que vão desde a poesia épica de Robert Browning até a filosofia existencialista. Isso nos leva a um ponto crucial: a interdisciplinaridade como uma fonte rica de criatividade.
A interdisciplinaridade é o ato de combinar ou integrar dois ou mais campos acadêmicos, disciplinas ou áreas de prática para produzir uma nova síntese ou resolver um problema. No contexto da escrita e da criação artística, isso significa que você não precisa se limitar ao seu gênero ou meio específico para encontrar inspiração. Pode-se buscar insights em campos tão diversos quanto a ciência, a história, a religião e até mesmo em outras formas de arte como a pintura, a música ou o cinema.
Por exemplo, o escritor Michael Crichton, autor de "Jurassic Park", era formado em medicina. Ele usou seu conhecimento em genética para criar uma história que, embora fosse de ficção, tinha um fundamento científico sólido. Da mesma forma, Umberto Eco, autor de "O Nome da Rosa", era um semiólogo e filósofo. Ele usou sua profunda compreensão da simbologia e da teologia para criar um romance policial ambientado em um mosteiro medieval.
Mas como aplicar a interdisciplinaridade no processo criativo? Aqui vão algumas sugestões:
1. Estude Fora do Seu Campo: Se você é um escritor de ficção científica, por que não estudar um pouco de filosofia ou psicologia? Se você escreve romances históricos, talvez um entendimento básico de economia ou política possa enriquecer suas histórias.
2. Converse com Especialistas: Às vezes, uma conversa com um especialista em um campo completamente diferente pode oferecer novas perspectivas que você nunca teria considerado.
3. Leia Amplamente: Não se limite a um único gênero ou tipo de livro. A leitura diversificada expande seu repertório mental e oferece uma variedade mais rica de material para você "remixar" em suas próprias obras.
4. Pratique a Observação Ativa: Seja um observador ativo do mundo ao seu redor. Visite museus, assista a peças de teatro, ouça diferentes tipos de música. Cada experiência é uma oportunidade para coletar "matéria-prima" para sua criatividade.
5. Faça Anotações Constantes: Mantenha um caderno de ideias, citações, observações e tudo o que chamar sua atenção. Você nunca sabe quando algo aparentemente irrelevante se tornará a peça que faltava em sua história.
6. Desafie-se com Projetos Diversos: Tente escrever em diferentes gêneros, ou talvez experimente outras formas de arte. Isso não apenas melhora suas habilidades, mas também expande seu entendimento sobre diferentes formas de expressão criativa.
7. Meditação e Reflexão: Às vezes, a melhor forma de encontrar uma ideia inovadora é silenciar o mundo ao redor, fazer uma caminhada solitária em meio à natureza (cuidado com cobras, ladrões e jovens amantes).
Ao adotar uma abordagem interdisciplinar para a criatividade, você não está apenas acumulando mais "ferramentas" para seu "kit de ferramentas criativas", mas também está desenvolvendo uma mentalidade mais aberta e flexível que é capaz de ver conexões onde outros não veem. E, como Austin Kleon sugere, é a habilidade de ver essas conexões únicas e transformá-las em algo novo que separa os verdadeiramente criativos dos meramente talentosos.




Muito bom Jurandir, seus textos fazem jus ao seus vídeos maravilhosos!
Muito bom! Também compartilhei com minha esposa, que é uma exímia desenhista, pois acredito que os conselhos e reflexões aqui apontados servem para qualquer expressão da arte. Muito obrigado.