Final feliz ou triste?
A final de um livro pode marcar a vida do leitor, para o bem ou para o mal.
Quando cheguei nos dois últimos parágrafos do livro As Vinhas da Ira, de John Steinbeck, fui pego por uma emoção incontrolável e não pude segurar as lágrimas. Um final destruidor, e ainda assim com uma esperança melancólica que nos ensina muito sobre a nossa humanidade.
Escrever um final que impacta a vida do leitor é a parte mais difícil de escrever um livro. Alguns autores são famosos por finais ruins, ou no mínimo duvidosos, como Stephen King. Outros por sempre colocarem finais felizes ou por sempre terminarem com uma tragédia, o que te faz saber exatamente o que vai acontecer. Mas como saber se meu final vai agradar o leitor e, principalmente, vai ser honesto com a história e com os personagens?
Pense no final do conto Um homem bom é difícil de encontrar, de Flannery O’Connor. Conforme você vai chegando ao final, você já sabe o que vai acontecer, mas ainda assim fica completamente arrasado com o desfecho. A previsibilidade nem sempre é ruim, contanto que o escritor saiba entregar.
Eis alguns passos para um bom final:
O que sua história pede? O que é mais verdadeiro para a história e para os personagens? Se todo o seu livro tem um tom otimista, o leitor pode se sentir traído com um final trágico. Isso pode ser feito, contanto que de alguma forma o leitor saiba que, no fundo, a tragédia é possível. Seria como o final do filme Cidade dos Anjos. O anjo Seth é alertado sobre as consequências de abandonar o Céu e deixar de ser um anjo, mas ele prefere ignorar o alerta.
Não faça Deus ex Machina (uma solução miraculosa para os problemas), nem Diabolus ex Machina (uma intervenção diabólica e inesperada que acaba com tudo). Se quer dar uma solução inesperada, coloque elementos soteriológicos antes, para que não pareçam improvisados (uma estatueta pesada mencionada em contexto diferente anteriormente e que será usada para acertar a cabeça do invasor (o nome disso é Arma de Tchekhov); ou um vizinho chateado que não aguenta mais a música alta e que decide reclamar na hora certa e salva teu personagem [ele precisa ter sido mencionado anteriormente de forma natural]).
Você não precisa escolher entre triste e feliz, faça os dois. O final da trilogia O Senhor dos Anéis pode parecer feliz, afinal o anel foi destruído, assim como Sauron, mas as consequências foram pesadas. Frodo não apenas perdeu um dedo, ele já não é mais feliz como antes. Sua inocência, sua paz interior, seu psicológico ficaram eternamente abalados. No final de O Sol é Para Todos nós temos dois eventos altamente contrastantes: a tristeza pela perda do caso, e a alegria pela ajuda recebida de Boo Radley.
Deixe um final aberto. Nem sempre temos todas as respostas. Finais abertos podem ser perigosos, mas podem ser geniais (veja o final do filme Os Suspeitos, com Hugh Jackman e Jake Gyllenhaal).
Finais interessantes costumam levar seu personagem de volta ao mesmo lugar onde a história começou. O lugar é o mesmo, mas o personagem não, como Frodo ou Bilbo. O importante é que o personagem tenha passado por uma grande transformação, e o final é o momento certo de fazer isso.



Este artigo é fantástico.
Estou maratonando seus vídeos no Youtube, e são excelentes.
Realmente estou aprendendo muito como ser um bom escritor de contos de ficção!