Lições de Escrita de Oppenheimer
O que aprendi com o fabuloso roteiro de Oppenheimer sobre como contar uma boa história.
Oppenheimer já ultrapassou os U$ 500 milhões em bilheteria e ainda nem estreou na China, então esse número certamente vai aumentar bastante ainda. O lançamento do filme foi cercado de expectativa e por vários motivos. O principal: Nolan, um dos maiores diretores de nosso tempo. Mas ele conseguiu criar uma expectativa que foi além do seu nome. A história gira em torno de uma das figuras mais controversas da humanidade, alguém que nos deu motivos ainda maiores para termos medo das guerras. O ator escolhido por Nolan para o papel principal, Cillian Murphy, estava em alta graças a sua brilhante atuação na série Peaky Blinders. Soma-se a isso o fato de Nolan construir uma bomba de verdade para fazer o filme e de esse ter sido o primeiro roteiro escrito em primeira pessoa na história (aliás, quando disse isso no meu vídeo sobre o filme, muitos que não entendem de roteiro ficaram nervosos, mas eu explico mais abaixo).
Como escritor, sempre estou buscando entender os segredos tanto do sucesso como do fracasso, seja de livros, séries ou filmes. E após refletir sobre o estrondoso sucesso de Oppenheimer, cheguei a algumas conclusões que quero compartilhar com vocês, aquelas que, na minha opinião, são as principais lições que um escritor, de livros ou roteiros, pode aprender desse filme:
Lição 1: Dilema é melhor que Problema
Imagina a seguinte história: seu irmão mais velho é preso injustamente e está para ser executado. Então você decide usar todo o seu conhecimento para libertar seu irmão e salvá-lo da pena de morte. Isso é um problema, na verdade muitos problemas. O escritor terá de solucionar uma série de problemas complexos para tirar você da prisão, e isso é, por si só, interessante, mas não mais do que isso.
Agora imagine o segundo cenário: seu irmão mais velho está preso, mas você não tem certeza absoluta da inocência dele. O fato é que ele foi sentenciado à pena de morte e você decide resgatá-lo. Mas pra fazer isso, você vai ter que se aliar com assassinos e estupradores e, inclusive, vai ter que libertá-los juntamente com você. Agora isso é um dilema. Você tem questões morais envolvidas e qualquer escolha que você fizer será ruim. Você deve escolher entre dois males: deixo meu irmão morrer por um crime que talvez ele tenha cometido ou liberto meu irmão junto com estupradores e assassinos? E é aí que você consegue uma história como Prison Break, com conflitos morais e dilemas em todos os cantos, desde manipular o amor de Sarah para ajudar na fuga a ter que libertar o T-Bag, cada temporada é cheia de dilemas.
Oppenheimer acerta em cheio nisso. Construir uma bomba atômica não é um problema, não para Oppenheimer, não durante a Segunda Guerra Mundial. Aquilo era um dilema, dos pesados. Se coloca no lugar dele. Se você não construir a bomba, Hitler vai construir, e o mundo, como conhecemos, acaba. Porém, se você construir a bomba, o presidente Truman vai usá-la, e o mundo acaba para milhares de pessoas.
No caso de Oppenheimer o dilema é semelhante ao de Michael Scofield no sentido do conflito entre ação/inação. Em ambos os casos, eles poderia ter escolhido não fazer nada, se esconder, deixar rolar, dizer: Não é minha responsabilidade, eu não tenho nada a ver com isso. Apenas uma diferença: Burrows não estava esperando que o irmão fosse fazer um monte de tatuagem e ser preso para salvá-lo, então Michael poderia simplesmente ter ficado em casa. Já para Oppenheimer, havia uma expectativa de que ele fosse a melhor pessoa para o trabalho, a ponto de ignorarem por um tempo todo o seu lado comunista.
Você pode, claro, criar histórias que tenham apenas problemas, mas elas não terão a profundidade que poderiam caso você trabalhasse dilemas nelas.
Lição 2: Descomplicando o complicado
David Baldacci, best seller nos Estados Unidos, e que teve quatro de seus livros adaptados para o cinema, disse em sua Masterclass: "Deixe a maior parte de sua pesquisa fora do seu livro. Você vai me agradecer depois." E ele está falando sério, porque enquanto explica sobre isso, Baldacci nos mostra uma pilha com cinco fichários e milhares de páginas de pesquisa sobre armas, bombas e outros assuntos militares que ele teve que pesquisar para escrever seu livro "Zero Day". Sua regra, uma regra compartilhada por todos os bons escritores, é de que você não precisa explicar tudo para seu leitor. Sim, o escritor fica entusiasmado ao descobrir um monte de coisa legal sobre um determinado assunto e acaba se empolgando e deseja colocar tudo no livro, todos já passamos por isso. Mas não é assim que funciona. Seu público não precisa se tornar um especialista, mas ele precisa ter a impressão de que você é um. O escritor sempre deve saber mais do que o público em geral.
Oppenheimer é sobre física e bombas atômicas e de hidrogênio. E mesmo assim não é o filme mais complicado de Nolan. Não tem a baboseira exagerada de Tenet ou a confusão deliciosa de A Origem. De forma inteligente, Nolan consegue lidar com temas complexos, sem explicar tudo, mas ao mesmo tempo sem deixar os expectadores confusos. Eu entendi que a física quântica desafia a lógica, que era um campo completamente novo, que eles precisaram gastar bilhões para criar uma arma viável, que havia uma mínima chance de destruir o planeta inteiro e que Einstein não era nenhum pouco a favor da ideia. Sinceramente, como expectador eu não preciso entender mais nada. As conversas técnicas, que não foram muitas, conseguiram soar familiares o suficiente para eu não me sentir um imbecil, mas não foram simples o bastante para eu entender tudo. E tá tudo bem. Até porque o foco do filme não era a bomba, mas o criador dela. O personagem é o mais importante, sempre.
Lição 3: Ponto de Vista
Nem todas as opiniões importam. Na verdade, apenas a opinião de poucos importam. Isso é verdade na nossa vida particular e é verdade em um livro ou filme. Imagine uma história onde a opinião de cada pessoa é levada em consideração, onde a perspectiva de todos é relevante. Um escritor que fez isso foi Faulkner no seu livro O Som e a Fúria e eu realmente admiro qualquer pessoa que tenha adorado aquele livro. Eu gostei da construção de diálogos e profundidade dos personagens, mas tirando isso, o livro é terrivelmente confuso e cansativo, porque o autor muda o ponto de vista da história a qualquer momento, sem aviso.
Como leitores e espectadores, queremos nos identificar com os protagonistas e, para isso, é importante nos colocarmos no lugar deles, enxergar o mundo da perspectiva deles. É por isso que nos apegamos a personagens e até mesmo choramos quando o cruel escritor os mata (Casamento Vermelho).
Oppenheimer tem apenas dois pontos de vista. O principal, do protagonista Oppenheimer, e o secundário, do antagonista Strauss. Quando vemos em preto e branco, estamos na perspectiva do antagonista, um homem de mentalidade binária onde tudo é preto ou branco, que não consegue ver as nuances e complexidades da vida. Para ele, Oppenheimer só pode ter falado mal dele para Einstein, não existe outra possibilidade, porque o mundo gira ao redor de seu umbigo.
Na perspectiva de Oppenheimer as coisas são muito mais complexas, a ponto de nada girar em torno de si, mas de questões físicas e morais muito difíceis que extrapolam sua capacidade de controle.
Esse foi o primeiro roteiro da história a ser escrito em primeira pessoa. Quando afirmei isso em meu vídeo, vários vieram me contestar dizendo que era um absurdo, dando exemplos como Taxi Driver e Psicopata Americano pra dizer que já existiram outros roteiros em primeira pessoa… Não, esses roteiros foram escritos em terceira pessoa, na perspectiva de uma pessoa, o que é algo completamente diferente. Quando você lê esses roteiros, e todos os outros com exceção de Oppenheimer, você lê: "Fulano entra na sala e diz:…". Mas quando os atores leram Oppenheimer eles leram: "Eu entro na sala e digo:…". Por isso, Oppenheimer é o primeiro a ser escrito, NO ROTEIRO, em primeira pessoa. A ideia é de completa subjetividade. De enxergar o mundo pelos olhos de uma pessoa, desde o roteiro.
Em livros isso sempre foi uma realidade, e quando bem-feitos, livros em primeira pessoa são uma experiência maravilhosa. Mas tem muito livro aí usando bem mal a primeira pessoa, mas isso é assunto para outro artigo.
Lição 4: Motivações internas e externas
Por que Walter White resolveu fabricar drogas? Se você acha que foi pelo dinheiro, você está errado. Se esse fosse o problema maior, ele teria parado na segunda temporada e teria ficado tranquilo em casa, comendo Doritos. Não, não era apenas a motivação externa, porque motivações externas são motores fracos para as pessoas. Chega numa pessoa gorda e fala: Você precisa emagrecer e veja se essa motivação externa vai ser suficiente para ela mudar completamente seu estilo de vida. Walter White queria poder e respeito, e o problema do poder é que ele vicia e nunca é o bastante, por isso ele foi até as últimas consequências para ganhar o respeito e conquistar o poder que queria.
Oppenheimer, como personagem, tinha motivações externas muito claras: Hitler é um homem horrível que está construindo uma bomba atômica, e nós precisamos fazer isso antes dele. Mas essa motivação por si só não é suficiente para fazê-lo superar todo o dilema moral envolvido na criação da maior arma de todos os tempos.
Por isso Oppenheimer é apresentado com outras duas motivações, ambas internas:
Motivação Emocional: Eu sou judeu, Hitler está fazendo um genocídio com meu povo, eu preciso detê-lo.
Motivação Intelectual: Eu sou cientista teórico. Recebi a oportunidade da minha vida de testar minhas teorias e provar que eu estava certo.
Veja que as motivações internas elas raramente são declaradas, mas o leitor/espectador é capaz de percebê-las. Elas são profundas o suficiente para manter a história coerente com o caráter e personalidade do protagonista.
Lição 5: Tudo ou nada
Imagine uma história de divórcio. O casal quer se divorciar, eles não se amam mais, eles desistiram. Acabou. Nenhum pouco importante ou interessante. Mas e se um deles ainda ama demais o outro? E se na verdade os dois se amam, mas o relacionamento chegou num ponto de amor e ódio cheio de complexidade e emoções à flor da pele? E se, pra eles, isso fosse a coisa mais importante do mundo? Ah, nesse caso a história é importante, ela vale a pena e vai destruir teu coração, como nos filmes História de um Casamento e Namorados para Sempre.
Ninguém quer uma história onde nada realmente importante não acontece. Ao menos para os personagens, tem que ser algo realmente importante, mesmo que seja algo idiota como devolver uma mala, em Debi & Loide, ou algo singelo como se apaixonar em poucas horas como no filme Antes do Amanhecer. Para esses personagens, aquilo que aconteceu não foi coisa pequena, foi memorável, único, forte.
No caso de Oppenheimer, essa tarefa foi fácil. Ele estava literalmente lidando com o futuro da humanidade. Era tudo ou nada. Mas o que importa aqui é como o personagem lida com esses riscos e como isso afeta sua vida.
Lição 6: Levanta um debate
Como Ian Malcolm (Jeff Goldblum) afirmou em Jurassic Park:
"Seus cientistas estavam tão preocupados em saber se conseguiam ou não que não paravam para pensar se deveriam".
O mesmo poderia ser dito para o Projeto Manhattan. Os cientistas envolvidos no projeto estavam tão empolgados com a teoria científica que apenas quando estavam terminando o projeto eles se deram conta do que significava construir uma bomba. Eles não estavam lá na Europa lutando, vendo a guerra de perto, mas trabalhando confortavelmente nos Estados Unidos.
Têm pessoas na internet defendendo e outras atacando Oppenheimer, e isso é ótimo. As pessoas estão conversando sobre história e física. O filme está pautado. Todo escritor deseja isso. Ser amado pressupõe uma semelhante dose de ser odiado. Pense em um grande escritor, qualquer um, desde Machado de Assis a Stephen King, todos eles têm fãs e haters. Isso porque eles se arriscaram. Talvez tenham se arriscado num assunto polêmico ou numa forma de apresentar que trouxe consigo muitos inimigos (como meu caso com Faulkner).
Escrever é algo extremamente prazeroso, doloroso, cansativo, cruel e maravilhoso. E Nolan nos ensinou um pouquinho sobre isso através de sua obra de arte.










Muito bom! Senti um alívio literário ao encontrar o seu perfil aqui. Você é necessário.
Maravilhosa reflexão sobre o filme, com todas as dicas literárias neste artigo. Estou aqui, aprendendo com você.