O Homem no Banco de Trás
Quando o vilão mais ajuda do que atrapalha
Colateral é um dos meus filmes favoritos de todos os tempos. E eu já fiz um vídeo no canal analisando-o.
Mas hoje eu quero explorar algo que eu notei em vários vilões dos quais gosto. O fato de eles terem uma função narrativa positiva. Deixe-me explicar.
Max é um homem que nunca sai do lugar. Trabalha como motorista de táxi em Los Angeles, mas seu verdadeiro trajeto é mental: ele sonha com uma empresa de limousines, fala sobre planos, mostra fotos de revistas e, ao mesmo tempo, admite que ainda está “planejando” há doze anos. Ele é um personagem aprisionado na própria segurança.
Quando Vincent entra em seu carro, o equilíbrio de Max é destruído. O assassino que entra de terno e gravata não é apenas um cliente — é a força da mudança que faltava para ele. A maioria dos personagens, e das pessoas reais, só muda com o tempo e o trauma. 12 anos de planejamento não mudaram Max. Chegou a hora do trauma.
O que o filme mostra não é apenas o embate entre vítima e criminoso, mas o encontro entre um homem paralisado e outro que age sem hesitação. Vincent é o catalisador que faz Max, finalmente, agir.
Eu falo sobre isso no curso, sobre como precisamos justificar a mudança de um personagem. E nada melhor do que usar o vilão para causar essa mudança.
Pense na vida de Max antes do filme Colateral começar, antes daquela noite em que um assassino entrou no seu carro. Ele estava acomodado, falando de sonhos, mas não realizando.
Pense na vida de Max depois que o filme Colateral termina. Agora ele tem uma bela mulher e a força para realizar seu sonho.
Vincent, o vilão, o assassino, o antagonista, na verdade… não era um antagonista. Ele era o catalisador.
Antagonista é aquele que se opõe à necessidade do personagem. Quando minha mulher está com sono e o Ulisses chora, meu bebê é o antagonista. Não um vilão, apenas alguém que se interpõe entre você e seu objetivo.
Vincent é um vilão, um assassino, mas ele não é um antagonista. Não exatamente. A necessidade de Max é de mudança, de ação, de tomar o controle da sua vida. Vincent dá exatamente isso a ele. Talvez Max tenha até mesmo que agradecer a Vincent por mudar a sua vida completamente. Talvez por isso essa cena final seja tão marcante.
Os dois se olham como quase amigos se despedindo. E isso torna este filme em uma obra de arte.
Quando for escrever o seu vilão, lembre-se de que ele nem sempre precisa ser o antagonista. Ele pode ser exatamente do que o seu personagem precisa.


