O Livro Mais Perigoso do Mundo
Qual o limite a liberdade de expressão em obras de ficção? Uma reflexão de dois livros, um filme, atentados terroristas, livros queimados e um decreto de morte.
Em Março de 1862, um jornal intitulado The Christian Recorder publicou aquele que se tornaria o poema mais popular entre as crianças americanas por mais um século:
Sticks and stones may break my bones, but words will never break me.
Traduzindo:
Paus e pedras podem quebras os meus ossos, mas palavras jamais me quebrarão.
No centro desse poema de autoria desconhecida está um ensinamento basilar da sociedade americana: a resiliência diante da liberdade de expressão. É notável pensar que o jornal que publicou essas palavras pertencia à Igreja Metodista Episcopal Africana que, como o nome já diz, tinha como público alvo os evangélicos afro-americanos. Outro ponto importante: essa edição saiu três anos antes da abolição da escravatura nos Estados Unidos. Imagine-se sendo um homem afro-americano, durante a escravidão, ouvindo que palavras não podem te quebrar. Se pensar bem, faz sentido. Paus e pedras reais estavam sendo usados para quebrar seus ossos, o que faz com que palavras maldosas tenham um peso muito pequeno.
157 anos depois dessa publicação, Dave Chappelle lançou seu especial “Sticks and Stones” na Netflix onde apresenta com seu humor de storytelling tão característico como a sociedade se tornou muito mais sensível, atacando comediantes por fazerem piadas sobre temas que foram considerados por alguns grupos como sagrados e intocáveis. Mas a arte existe para tocar o intocável, e sempre será assim. Seja para exaltar o intocável, como no caso de Michelangelo ao conectar Deus e o homem em sua obra “A Criação de Adão”, seja para profanar o intocável como nos casos de “Os Versos Satânicos”, de Salman Rushdie, e de “A Última Tentação de Cristo”, do escritor grego Níkos Kazantzákis. Vamos falar sobre a profanação.
No ano de 1988, o já premiado autor indiano naturalizado britânico Salman Rushdie publica não a sua principal obra, porém a mais conhecida: Os Versos Satânicos. Na obra, Rushdie descreve um atentado terrorista e seus únicos dois sobreviventes: dois atores indianos que caem na Inglaterra, mas durante a queda sofrem uma terrível mutação que tornaria um deles em um arcanjo e outro no próprio demônio. A história imersa num realismo mágico que lembra Gabriel Garcia Marquez e Ítalo Calvino, vai alternar entre as lutas da vida de imigrante desses personagens com os delírios do arcanjo que acredita ter inspirado Maomé na criação do Corão. É nesses capítulos, que se inserem no livro como os próprios versos satânicos que propõe satirizar, que Salman Rushdie cruzou a fronteira permitida pela segunda maior religião do mundo, o Islamismo.
Ao satirizar o profeta Mahound (variante do nome Maomé encontrada em textos medievais) e o Corão (texto sagrado do Islã), Salman encontrou-se sob uma fatwa, um decreto de morte emitido pelo Aiatolá Khomeini. O líder supremo do Irã na época definiu o livro como blasfemo, emitiu um decreto de morte (fatwa) contra o escritor e colocou uma recompensa de 1 milhão de dólares para quem o matasse (posteriormente esse valor foi aumentado para 2.5 milhões). A fatwa foi revogada nove anos depois, mas não antes de atentados, mortes e bombas, e mesmo sua revogação não foi o suficiente para impedir que Salman quase perdesse sua vida em 2022.
Os atentados terroristas relacionados ao livro "Os Versos Satânicos" ocorreram em diferentes lugares e em diferentes datas. Aqui estão alguns dos mais significativos:
12 de fevereiro de 1989: Pelo menos seis pessoas são mortas na cidade paquistanesa de Islamabad em um tiroteio entre a polícia e homens armados em uma multidão que protestava contra a venda do romance nos Estados Unidos.
14 de setembro de 1989: Quatro bombas são plantadas do lado de fora de livrarias na Grã-Bretanha de propriedade da Penguin, editora de "Os Versos Satânicos".
2 de julho de 1990: Ettore Capriolo, um tradutor italiano do livro, foi esfaqueado em Milão, Itália. Ele sobreviveu ao ataque, mas ficou gravemente ferido.
3 de julho de 1991: Hitoshi Igarashi, um tradutor japonês do livro, foi assassinado em Tóquio, Japão.
11 de outubro de 1993, William Nygaard foi atacado em Oslo, na Noruega. Nygaard era o editor norueguês da edição em língua norueguesa do livro "Os Versos Satânicos", de Salman Rushdie, e foi baleado fora de sua casa por um homem armado. Ele sobreviveu ao ataque, mas foi gravemente ferido e passou várias semanas no hospital.
A controvérsia levou Rushdie a se isolar por vários anos sob proteção da polícia. Enquanto vários artistas manifestaram apoio ao escritor indiano diante da resposta violenta por parte de extremistas islâmicos, houve quem o criticasse e dissesse que a culpa era, na verdade, dele. Culpar a vítima não é privilégio da era digital, ao que parece. Entre os críticos, um nome se destacou pra mim em minhas pesquisas: Roald Dahl. O autor de livros infantis criticou Rushdie por ter, com seu livro, ofendido a religião islâmica, chamando-o de oportunista e sensacionalista. O mundo dá voltas. Há poucas semanas, a editora de Dahl declarou que estava reescrevendo os livros do autor, falecido há mais de 30 anos, para retirar palavras ofensivas como gordo e feia. Quem saiu em defesa da obra de Dahl pela preservação da liberdade de expressão? Salman Rushdie, claro.
Alguns podem querer argumentar que tamanho ódio à liberdade de expressão é uma característica própria apenas do Islamismo, e que o Cristianismo encara isso de forma muito mais progressista. Mas isso não é verdade. Pode não haver um líder supremo cristão como um aiatolá capaz de emitir uma sentença de morte aos blasfemos, mas o Cristianismo também carrega uma carga não menor de ameaças e ataques contra os que ousam satirizar ou profanar o sagrado. Apesar da maior parte de suas manifestações violentas terem ficado nas sombras da Idade das Trevas, ainda há os defensores violentos da fé cristã.
No mesmo ano do lançamento do livro “Os Versos Satânicos”, Martin Scorsese lançou seu filme mais polêmico: A Última Tentação de Cristo. O filme, baseado no livro "A Última Tentação, do escritor grego Níkos Kazantzákis, aborda a maior e mais terrível tentação que, de acordo com ele, pode vir sobre um ser humano, que é a de ser um homem comum. Em seu livro, Cristo, na cruz, reflete sobre suas tentações e é abordado por um anjo que diz que ele pode descer da cruz, que seu sacrifício não é mais exigido. Ele assim o faz, tornando-se um homem comum, casando-se com Marta, formando uma família. Em sua velhice, perto da morte, ele conta aos discípulos desiludidos sobre a permissão dada pelo anjo de descer da cruz, e eles então entendem e explicam que aquele anjo era na verdade o próprio diabo tentando-o. Cristo reconhece o erro, volta à cruz e conclui seu sacrifício.
A despeito dos erros teológicos contidos no livro, a obra faz uma reflexão ousada sobre os desejos mais profundos do ser humano. O filme, estrelado por Willem Dafoe, foi proibido de ser exibido em muitos lugares, foi criticado por muitos líderes religiosos e Martin Scorsese sofreu várias ameaças de morte.
O Brasil já viu coisas semelhantes acontecerem com os profanos especiais de fim de ano do Porta dos Fundos. É incrível como muitos querem uma liberdade de expressão que se aplica apenas à si, mas não a outros.
Há sete meses, no dia 12 de Agosto de 2022, a fatwa, que já havia sido revogada em 1998, quase se cumpriu. Durante uma apresentação na cidade de Chautauqua, New York, Salman Rushdie, de 75 anos, foi esfaqueado. Rushdie sofreu quatro ferimentos na região do estômago em seu abdômen, três ferimentos no lado direito da parte frontal do pescoço, um ferimento no olho direito, um ferimento no peito e um ferimento na coxa direita. Como consequência ele quase perdeu a vida, perdeu a visão do olho direito e, em entrevista recente, afirmou sofrer com transtorno pós-traumático. Em entrevista ao New Yorker, Rushdie afirmou não conseguir escrever e manifestou gratidão pelo suporte recebido, desta vez muito mais amplo do que quando da emissão da fatwa. Seu novo romance, Victory City, lançado este ano, foi terminado duas semanas antes do ataque e apresenta um Rushdie muito maduro, com uma escrita afiada que esperamos que retorne em breve às prateleiras das livrarias.
Como passamos de “paus e pedras podem quebrar meus ossos, mas palavras jamais me quebrarão” para um momento da história onde palavras são violência, mas violência real é vista por tantos como mera manifestação? Quando os sentimentos passaram a ser mais importantes do que a própria vida do outro? Que retorno bárbaro às trevas da Idade Média onde o pensamento diferente não pode ser manifestado.
Ficção, assim como a comédia, deve ser livre. Até mesmo para zombar daquilo que eu considero sagrado. Afinal, o sagrado hoje, os assuntos intocáveis de nossa sociedade, foram por muitos anos considerados profanos. A roda do tempo gira, então é melhor não bancarmos os carrascos, pois amanhã podemos nos tornar as vítimas.



