O Niilismo de Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo
Demorei para assistir Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo. Não porque achasse que seria ruim, mas apenas porque teria de fazê-lo sozinha, já que minha esposa não gosta de filmes que, citando-a, “não fazem nenhum sentido”. E em um primeiro momento (num segundo e terceiro também) essa afirmação é verdadeira. Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo não é um filme para Todos em Todos os Lugares e em Todas as Épocas. Ainda assim, apesar de usar do humor nonsense (sem sentido) para captar a atenção da geração Z, ele transmite sim mensagens muito reais, significativas e importantes.
Em 1957, Hugh Everett, físico americano, tentou resolver o dilema do Gato de Schrödinger dizendo que o gato estava vivo e morto ao mesmo tempo, dando origem à proposta da Teoria do Multiverso. Essa teoria tem sido grandemente explorada pela Marvel e outros filmes já entraram no multiverso tentando explorar essa ideia. Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo também é um filme sobre multiverso, mas seu objetivo é muito mais profundo do que explorar a memória afetiva dos fãs de Homem-Aranha.
O filme traz a ideia de que não somos tão livres quanto pensamos. A ideia de livre arbítrio é condicionada às opções que nos são dadas e essas opções são limitadas pelo lugar onde nascemos, a família com a qual crescemos, bem como pelas escolhas de outras pessoas ao nosso redor, as decisões de nossos pais, elementos ambientais, políticos, sociais, enfim: somos livres para escolher entre algumas opções, mas não somos livres para escolher quais são as opções.
Ainda assim, isso não significa que somos vítimas das circunstâncias. Mesmo as pequenas decisões, o filme vai mostrar, podem causar mudanças drásticas de curso. Não sabemos como seria a nossa vida se tivéssemos escolhido uma graduação diferente, cônjuge diferente, cidade, trabalho, carro, rua, roupa, comida, etc…
E é isso que torna o filme tão desconfortável. Evelyn, a personagem principal, observa as muitas variantes de si mesma. Ela é descrita por Waymond Alpha como sendo a pior versão de todo o multiverso com bilhões de possibilidades. Ela inclusive descobre que, se tivesse ouvido seu pai e não tivesse se relacionado com o Waymond, teria se tornado uma atriz de sucesso, com uma carreira brilhante. Isso, porém, lhe teria custado a existência de sua filha, Joy.
E é aí que a coisa fica ainda mais pesada. Joy (alegria, em inglês) é tudo, menos alegre. É uma jovem que se sente completamente deslocada de seu mundo. É o ápice dos problemas de saúde mental enfrentados pela geração Z. Ela conseguiu acessar todas as suas versões, um símbolo para a era do conhecimento na qual nasce essa geração. Ela sabe muito, mais do que seus pais, e isso a deixa frustrada, com raiva, pois não consegue ver nenhum sentido na vida. Nunca nenhuma geração teve tanta opção, tantas oportunidades. O problema é que isso não aumentou a felicidade, muito pelo contrário.
O termo para isso é sobrecarga de opções (choice overload) e tem sido objeto de estudo de muitos psicólogos e economistas. Basicamente, quanto mais opções você tem, mais infeliz você é. Imagine que você quer comprar leite. Qual leite você quer comprar? Integral, desnatado ou semidesnatado? Com lactose ou sem lactose? Orgânico ou comum? Leite de vaca, cabra, soja, amêndoa, caju ou coco? De qual marca? Esse é apenas um exemplo. Veja como é difícil escolher qual celular comprar, qual carro, qual roupa. Essa sobrecarga de opções leva à inevitável frustração. Nunca sabemos se fizemos a melhor escolha. Então começa o jogo do “e se…”. E se eu tivesse feito arquitetura ao invés de direito? E seu eu tivesse namorado com “b” ao invés de “a”. E se eu tivesse aceitado aquele trabalho? E se…
O Instagram e outras redes sociais apenas pioram a situação. Você passa a ter acesso a todas as vidas maravilhosas que outras pessoas estão tendo. Seus colegas de infância parecem mais felizes e bem-sucedidos do que você, e casaram com pessoas mais bonitas do que você casou. Eles são a manifestação do multiverso. São as infinitas possibilidades que você nunca vai desfrutar.
Nossos avós não tinham esse problema. As opções eram poucas. Até sua profissão era em muitos casos predeterminada. Isso não significa que eram sempre felizes. Mas todos imaginavam que, tendo mais opções, seríamos mais felizes. E esse foi o engano.
Joy vê o mundo como um emaranhado de aleatoriedades e coincidências sem sentido. Ela é a personificação do niilismo. Assim como Rick, de Rick and Morty, ela teve acesso a todas as versões do multiverso e concluiu que não existe nada que realmente faça a diferença. E, para ser fiel à sua filosofia, decide tirar sua própria vida. Mas antes, ela espera que sua mãe consiga fazê-la mudar de ideia. Ela quer que sua mãe enxergue o mundo como ela o vê, e espera que sua mãe consiga chegar a uma conclusão diferente. Ela quer que sua mãe a ensine sobre o sentido da vida.
A conclusão de Evelyn para a solução desse problema é a valorização da realidade presente. Não, a filha de Evelyn não é a filha que ela queria ter, e isso fica claro. Nem ela é a mãe que Joy gostaria de ter. Mas, já que suas opções são limitadas, já que esta é a realidade em que vivem, as duas precisam aprender a serem contentes, a se respeitarem, a se amarem. Waymond não é o marido dos sonhos, a vida de Evelyn não é a melhor versão. Ela não é a melhor versão de si mesma, apesar dos gritos desesperados dos coaches tentando nos transformar nessa versão impalpável. Por isso, ela precisa ser feliz, dar o seu melhor, amar sua família e aproveitar as coisas boas que existem em sua realidade.
É um bom filme, não tão sem sentido no final das contas. Fala especialmente com as duas últimas gerações, mas possui temas intergeracionais em toda a trama que fazem que atraia um grande público, com lições preciosas para todos.


