Pontos de Vista Narrativos
Como escolher a voz que contará sua história
O que é ponto de vista narrativo?
Ponto de vista é o “olho” ou voz narrativa através da qual você conta uma história. Quando você escreve uma história, deve decidir quem está contando a história e para quem está contando. A história pode ser contada por um personagem que está envolvido na história, ou de uma perspectiva que vê e conhece todos os personagens, mas não é um deles.
Há basicamente 3 PDV com suas subdivisões. Para exemplificar eu criei um parágrafo e o narrei de todas as perspectivas de PDV, assim você poderá comparar e decidir qual parece melhor para seu estilo ou sua história.
Primeira pessoa:
Narrador envolvido:
"Eu entrei no grande salão. O guarda me seguia de perto. Não era a primeira vez que eu era convocado à presença do rei. Quando pequenos, muitas vezes brincamos no salão real, e muitas vezes o venci em nossas batalhas de faz de conta. Agora não era mais um faz de conta. Eu temia que o rei soubesse da carta, mas não conseguia imaginar como. Apenas quatro pessoas além de mim sabiam do plano, e nenhuma delas me trairia. Ao menos era o que eu pensava."
Narrador observador:
"Eu o vi entrar no grande salão. Porém, ele já não era a mesma figura que tinha em minha mente na minha infância. Seus passos lentos e olhos vidrados não combinavam com o guerreiro que, sozinho, matara dezessete soldados e conquistara o monte Edar. Virei-me para olhar o rei e notei pouca simpatia. Aquele não era o encontro de melhores amigos. Não mais. Só havia um motivo para o rei chamá-lo naquela manhã. A carta. Ele sabia disso. O que ele não sabia era quem o havia traído."
Benefícios:
Mais fácil, pois você descreve a partir de uma única perspectiva.
Mais íntimo, pois o leitor se conecta com o narrador.
O narrador pode ser confiável ou não.
O narrador pode ser observador ou envolvido.
Problemas:
Perspectiva limitada (o narrador só narra o que vê, não sabe o que está acontecendo em outros lugares ou na cabeça dos outros).
Já revela que o narrador sobrevive para contar a história.
Segunda pessoa:
"Você então entra em um salão enorme. Você sabe que o guarda está logo atrás de você e sente medo. Esse é um sentimento novo pra você. Quantas vezes você brincou com o pequeno príncipe no salão real. Ele não era tão pequeno agora. Derrotá-lo não seria tão fácil e vocês não usariam espadas de madeira. Talvez o rei saiba da carta, mas você não consegue imaginar como. Além de você, apenas quatro pessoas sabem do plano. Quem seria capaz de te trair?"
Benefícios:
Intimidade: Você consegue colocar o leitor dentro da história, participante, quase como em um RPG.
Problemas:
Muito difícil de executar.
Terceira pessoa:
Narrador Objetivo:
"Igorr adentra o salão prateado com passos lentos. A mão acostumada a segurar firmemente o punho da espada agora está fria, junto ao corpo. Linhas pesadas cruzam o rosto do rei que tantas vezes sorrira para ele naquele mesmo salão onde encenaram as mais incríveis batalhas. Igorr tinha uma chance de vencê-lo de verdade agora. Mas talvez o rei soubesse da carta. Cinco pessoas, incluindo Igorr, assinaram a carta. Apenas os cinco sabiam do plano. Um deles era o traidor."
Benefícios:
Liberdade: você pode narrar todos os eventos, em todos os lugares, de todas as perspectivas.
Problemas:
O narrador objetivo não entra na cabeça dos personagens. Ele não pode dizer que Igorr está ansioso ou com medo, pois ele é apenas um observador. Ele tem que usar sua capacidade de descrição para, através das dicas textuais, contar os sentimentos dos personagens.
Narrador Envolvido:
"Igorr caminha lentamente pelo salão prateado enquanto um calafrio percorre sua espinha. Ele sabe que o guarda está logo atrás de si e que aquela não é uma visita social. Enquanto caminha, sua mente é inundada por memórias, como as incontáveis batalhas de faz-de-conta que ele travou naquele mesmo salão com o pequeno príncipe. Mas agora, não é um menino, nem um príncipe, que ele vê diante de si. O rei sabia da carta, Igorr podia perceber em seus olhos. Esta não era uma batalha de faz-de-conta. Ele já empunhara sua espada contra centenas de homens, mas nada o preparou para isso. Apenas cinco pessoas sabiam do plano, incluindo Igorr. Alguém o traíra, ele só não sabia quem."
Benefícios:
Controle narrativo: você entra e sai de todas as cabeças, em todos os momentos.
Liberdade total.
Problemas:
Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades. Você não pode revelar tudo o tempo todo, senão não há tensão.
4 maneiras de usar o ponto de vista
Você pode usar o ponto de vista narrativo para muitos efeitos diferentes em sua escrita.
Crie suspense . Quando um leitor sabe mais do que o personagem, como em Drácula de Bram Stoker (1897), e seu leitor espera que o personagem aprenda o que já sabe. Essa tensão manterá seu leitor na ponta da cadeira.
Crie um narrador não confiável . Quando um narrador em primeira pessoa sabe mais do que o leitor, mas retém informações do leitor de propósito, a fim de manipulá-lo. Gone Girl (2012) de Gillian Flynn e Rebecca (1938) de Daphne du Maurier são exemplos brilhantes de narradores não confiáveis.
Crie ironia cômica . Quando um narrador em primeira pessoa sabe muito menos que o leitor e os outros personagens, cria uma comédia. Nessa estratégia, o leitor está rindo do narrador, e não com ele. Os exemplos incluem Gulliver em As Viagens de Gulliver (1726), de Jonathan Swift, no qual um narrador franco conta mentiras com cara séria, e Uma Confraria de Tolos (1980), de John Kennedy Toole, no qual o narrador reclama da inaptidão de outros personagens, quando ele é claramente o personagem mais inepto de todos. Um narrador onisciente também pode satirizar todos os personagens de uma história, como faz Voltaire em Cândido (1759).
Crie uma ironia trágica . Os personagens sabem menos que o leitor. A ironia narrativa também envolve o prenúncio , quando o narrador onisciente deixa pistas para o leitor sobre algo que acontecerá no futuro. Quando um evento trágico é prenunciado, mas os personagens não o veem chegando, uma sensação de ironia é criada. Você também pode criar uma ironia trágica no ponto de vista da primeira pessoa, mas você tem que andar na linha tênue de ter seu narrador prenunciando enquanto permanece verdadeiramente ignorante do que vai acontecer.
Experimente com os pontos de vista em uma cena como eu fiz acima e descubra qual soa melhor para a sua história e se encaixa no seu estilo. Mas se chegar ao final do livro e perceber que o PDV estava errado, não tenha pena, volte e refaça, pois escrever é reescrever.




Acho que seria interessante, como exercício, fazer o que você fez: Escrever a mesma coisa, de vários pontos de vista diferentes.