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Traumas do passado, as birras da minha filha e uma lição valiosa de escrita.

Como construir um bom personagem a partir de uma ferida emocional.

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Jurandir Gouveia
ago 27, 2024
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Construir personagens que pareçam reais é um grande desafio para todo escritor, e para chegarmos próximo desse objetivo é necessário olhar para a vida real.

Semana passada, em uma reunião de oração da minha igreja, agradeci a Deus publicamente porque minha filha mais nova acabou de completar dois anos. Em seguida, pedi oração... porque minha filha mais nova acabou de completar dois anos!

Quem já passou por isso sabe do que estou falando. Junto com as maravilhas e descobertas que acompanham essa fase de crescimento vêm muitos desafios. Uma das grandes maravilhas é presenciar o enriquecimento de seu vocabulário, que agora é formado pela junção de duas e três palavras. Frases! Que coisa incrível! Mas, junto com suas descobertas linguísticas, ela também começou a revelar traços de sua personalidade. Surgiram as terríveis birras e a noção de que pedir desculpas é algo ruim e humilhante. É simplesmente impressionante o fato de que essa configuração já vem de forma inata, mostrando que ela, apesar da fofura que é, como todo ser humano, também já é naturalmente egoísta e orgulhosa.

Diante desses comportamentos, muitas vezes nos sentimos perdidos sobre quais atitudes tomar. Bater não é uma opção, colocar de castigo parece ineficaz para a idade, e demonstrar descontentamento ou elevar o tom de voz não traz os resultados esperados, pelo menos não de imediato. Recentemente, ela passou uma semana repetindo a frase: "Mamãe: pála, cholá" (tradução livre: Mamãe disse: para de chorar), referindo-se a um episódio em que foi repreendida por fazer uma birra. O evento em questão pareceu realmente marcante para ela, e sempre que perguntada sobre como a mamãe a repreendeu, a mesma frase voltava à tona, acompanhada de gestos e expressões faciais, imitando os de minha esposa. Estamos nos perguntando como ela poderá sobreviver a um trauma como este, mas esperamos que ela fique bem!

Já na ficção, especialmente em se tratando de criação de personagens, os traumas são muito bem-vindos!

Além das descrições físicas, gostos e objetivos, adicionar as dores e conflitos internos a um personagem é importante para torná-lo mais real e cativante, e isso pode incluir o que chamamos de traumas, que Angela Ackerman e Becca Puglisi, em seu livro The Emotional Wound Thesaurus: A Writer's Guide to Psychological Trauma, chamam de ferida emocional.

Nesta obra, as autoras oferecem uma análise bastante interessante sobre como o trauma psicológico pode afetar a vida e as motivações de um personagem fictício.

Vamos então abordar a definição desse conceito e seus desdobramentos como ferramenta para a criação de bons personagens e enriquecimento da narrativa.

A ferida emocional é aquela experiência traumática que impacta de forma tão profunda a vida de um personagem, que é capaz de moldar sua personalidade e influenciar como ele reage ao mundo. Geralmente, fica claro para o público que essa ferida justifica suas ações, relacionamentos, medos ou motivações, e esse trauma gera um conflito interno ou externo que impulsiona a trama e permite o crescimento do personagem ao longo da narrativa. Portanto, tão importante quanto a ferida em si é o desenvolvimento do conflito que ela gera.

O primeiro passo para criar esse conflito é identificar a ferida emocional específica do personagem, que pode ser a perda de um ente querido, uma traição, abuso, rejeição, ou qualquer outra experiência que tenha causado dor significativa. A partir dessa ferida, o personagem desenvolverá seus medos e crenças limitantes.

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