Um roteirista da Pixar conta o segredo para uma grande história
O que os roteiristas e novelistas podem aprender com Andrew Stanton? Ele é o prolífico escritor e diretor da Pixar por trás de Toy Story , Vida de Inseto , Toy Story 2 , Monstros SA, Procurando Nemo, WALL-E , Toy Story 3 e Encontrando Dory.
Em 1990, Stanton foi contratado como segundo animador e nono funcionário da Pixar Animation Studios. Ele foi uma das forças motrizes originais do império da animação que conhecemos hoje e foi indicado a seis Oscars, dois dos quais ganhou (Melhor Animação por Procurando Nemo e Wall -E ).
Em uma palestra TED, Stanton afirma que "[Contar histórias] é contar piadas. É conhecer sua piada. Seu final. Saber que tudo o que você está dizendo, da primeira à última frase, está levando a um objetivo singular. E, idealmente, confirmando alguma verdade que aprofunda nossa compreensão de quem somos como seres humanos."
Estas são as 10 dicas que ele nos dá para atingir esse objetivo:
1. Faça com que eu me importe
Você precisa fazer com que o público se importe com seus personagens e com as dificuldades em que eles se encontram. Você consegue isso injetando emoção e elementos catárticos nos personagens. Quando sentimos que esses personagens são reais, ou melhor ainda, quando sentimos uma conexão com esses personagens ao nos relacionarmos com eles, nos preocupamos com o que vai acontecer com eles.
E isso funciona com vilões e antagonistas também. Podemos ficar intrigados com o quão ruins eles são e queremos que eles recebam o que merecem, ou nos identificamos com eles de alguma forma e queremos ver como nossas versões malignas reagiriam.
Não basta ter um monte de brinquedos falantes correndo pela sala e depois se perderem. Se não nos importamos com esses brinquedos como personagens, não nos importamos o suficiente para continuar lendo ou assistindo.
Foi o que aconteceu com o personagem Legolas na trilogia O Hobbit. Nos livros e filmes de O Senhor dos Anéis ele é um personagem ótimo, e a relação dele com Gimli foi um ponto alto no filme e nos livros. Mas ele não aparece no livro O Hobbit, então quando ele apareceu na adaptação do cinema, tão diferente de quem ele era antes, sem nenhum traço relacionável, sem nenhuma empatia, foi decepcionante.
2. Faça uma promessa
No início da sua história, você precisa fazer uma promessa ao público. Você precisa prometer que a história que está prestes a contar levará a algum lugar que valerá a pena. Stanton afirma que há muitas maneiras de fazer isso e, às vezes, é tão simples quanto escrever: "Era uma vez..."
Ele continua dizendo: "Uma promessa bem contada é como uma pedra sendo puxada para trás em um estilingue, que a impulsiona para a frente na história até o fim".
3. Esconda o fato de que você está fazendo o público trabalhar
É um equívoco pensar que o público quer que o escritor os conduza ao longo da história. Você nunca deve subestimar a inteligência do público. O público quer descobrir. A raça humana é um grupo curioso. Estamos intrigados com um mistério. Nossos cérebros são solucionadores de problemas naturais.
Você não precisa explicar demais o enredo. Você não precisa usar o diálogo para ditar o que um personagem está sentindo. Veja o exemplo de WALL-E . A primeira hora do filme é principalmente silenciosa - nenhuma palavra de diálogo. Mas pelas ações e reações de nosso protagonista, sabemos exatamente o que ele está pensando e sentindo. Sentimo-nos maravilhados com ele.
E isso porque Stanton escondeu o fato de que estava nos fazendo trabalhar como público. Não estávamos sendo alimentados com emoções internas. Não fomos bombardeados por diálogos expositivos ruins. Apenas observamos a vida de um robozinho e, pelo comportamento dele, entendemos que ele se apaixonou. Ele não disse isso, ninguém disse isso, mas nós conseguimos entender.
4. Teoria do 2+2
E a maneira como você faz o público juntar as coisas é empregando o que Stanton chama de Teoria Unificadora de 2+2 . Você nunca dá ao público 4. Você sempre fornece a eles uma equação para descobrir. É uma conta simples, mas há trabalho suficiente nessa equação para que eles aproveitem o processo de descoberta.
Se você estiver escrevendo um mistério policial, não mostre o assassino segurando a arma fumegante. Mostre o motivo e, em seguida, injete um momento posterior de descoberta quando a arma do crime for revelada em seu apartamento. Deixe seu leitor imaginar as possibilidades, criar teorias, se envolver.
5. Encontre a espinha dorsal do seu personagem
Stanton participou de um seminário de atuação onde a palestrante compartilhou sua crença de que todos os personagens bem desenhados têm uma espinha, um motor interno, um objetivo inconsciente dominante pelo qual estão lutando, uma coceira que não conseguem coçar completamente.
O de WALL-E era encontrar a beleza.
O de Marlin era proteger.
Para Woody era fazer o que era melhor para o Andy.
Qual é o motor interno do seu personagem, o objetivo inconsciente dominante e a coceira que ele não consegue coçar totalmente?
6. Drama é antecipação misturada com incerteza
Este é o elemento definidor de uma narrativa envolvente. Você, o escritor, construiu uma antecipação do que pode acontecer com os personagens? E depois de fazer isso, você misturou essa antecipação com a incerteza? Você lançou conflitos honestos o suficiente em seus personagens para nos deixar incertos sobre se esses personagens alcançarão ou não o que você esperava?
É assim que você conquista uma audiência. É assim que você os envolve. Veja o exemplo de George R. R. Martin. Nunca sabemos exatamente para onde seus personagens serão encaminhados, se sobreviverão, se permancerão íntegros. E isso nos cativa. Antecipação (aquilo que parece que vai acontecer) e incerteza (a dúvida de que o personagem vai realmente conseguir).
7. A narrativa tem diretrizes, não regras rígidas e rápidas
Em 1993, quando a Pixar estava desenvolvendo seu primeiro longa-metragem de animação, Toy Story , eles lutavam com as expectativas do que eram os filmes de animação da época – A Pequena Sereia , Aladdin , O Rei Leão .
Ao conceituar sua abordagem, eles criaram uma lista do que não queriam fazer.
Sem músicas
Nenhum momento "eu quero" (aquele momento onde o personagem declara qual a sua vontade, o que na Disney normalmente é feito em uma canção)
Nenhuma Aldeia Feliz
Nenhuma história de amor
Nenhum vilão
Então eles levaram o roteiro para um escritor não identificado da Disney. Stanton afirma que as observações feitas por ele diziam que o filme precisava de:
Músicas
Canção "Eu Quero"
Canção da Aldeia Feliz
Romance
Um vilão
A Pixar riu por último, pois sua visão para Toy Story se tornou um clássico icônico e abriu caminho para o império de histórias animadas "não ortodoxas" da Pixar.
Sim, existem diretrizes – e às vezes elas se aplicam. Mas não há regras rígidas e rápidas. Atreva-se a ser diferente.
8. Encontre o Tema
Encontrar o tema subjacente da sua história que está por trás da caracterização e do enredo é fundamental. Stanton aponta para Lawrence da Arábia como um de seus filmes mais influentes.
A cena clássica no final do filme em que alguém pergunta a Lawrence: "Quem é você?" Esse é todo o tema do filme. Ele está descobrindo quem ele realmente é.
Quais são os temas de suas histórias? Quando você souber e escrever com eles em mente, estará se conectando com o público de uma forma muito mais profunda.
9. Você pode provocar deslumbramento?
"Você pode provocar deslumbramento? Deslumbramento é honesto. É completamente inocente. Não pode ser evocado artificialmente. Para mim, não há habilidade maior do que o dom de desperter em outro ser humano esse sentimento. Faça com que eles se entreguem à admiração."
Stanton diz que o deslumbramento é o verdadeiro ingrediente secreto para uma ótima narrativa. Encontre o deslumbramento em seu conceito, história e personagens e apresente esses momentos mágicos a eles.
10. Use o que você sabe
Para criar personagens reais e momentos catárticos de admiração, você precisa usar o que conhece na vida. Suas próprias experiências de vida e emoções podem ser injetadas em sua história e personagens para aumentar o impacto que eles têm sobre o público.
Uma pena que não colocaram Stanton para escrever Lightyear. O filme era uma grande promessa e se tornou um fracasso assustador justamente por não respeitar estas regras e a visão original de Stanton com relação a Buzz Lightyear. Aliás, a Disney tem falahado miseravelmente nos últimos três anos em sua narrativa e, infelizmente, a Pixar foi vendida pra Disney em 2006, então o futuro para boas histórias é incerto, ao menos na Pixar.










Excelente texto!