Duas perguntas para seu público
Todo mundo já se frustrou lendo um livro ou vendo um filme. Você chega com uma certa dose de expectativa, mas conforme vai avançando na história percebe que não era aquilo que você queria. Como público, a gente só fecha o livro, muda o canal e segue a vida. Mas como escritores, precisamos aprender a evitar essa reação como o Cascão evita a chuva.
Existem duas perguntas que podem ajudar a mitigar esse problema:
Qual a expectativa da sua audiência?
O que você vai fazer com essa expectativa?
A expectativa é criada pelo escritor. Você definiu o gênero de sua história. Se é uma comédia, o público espera rir. Se é um terror, o público espera se assustar. Se é uma aventura, o público espera se animar. Se é um suspense, o público espera ficar ansioso. Se é um drama, o público espera se emocionar. Não é difícil. O público costuma ter expectativas bem simples.
Você define essa expectativa pelo título, pelas cores, pelo trailer, pela sinopse, pela sua reputação. É claro que nem sempre nossa intenção tem uma boa recepção por parte do público. A Disney esperava que a nova Branca de Neve gerasse sentimentos de nostalgia e alegria. Mas antes mesmo de lançarem o filme, ainda no trailer, viram que a expectativa do público era baixíssima e que o sentimento do público era de revolta, desprezo, raiva. Mas eles não foram pegos completamente de surpresa. Os sinais já existiam há bastante tempo: a fadiga com remakes, as falas controversas da atriz principal menosprezando o material original, a ideia de fazer panfletagem ideológica com histórias infantis clássicas, tudo isso alimentava um clima de oposição ainda na fase de produção. Mas eles ignoraram os sinais e o fracasso veio com força.
Nunca ignore os sinais. O tema que você escolhe para a sua história já possui histórico, você não é o primeiro a falar sobre esse assunto. Quando Jordan Peele decidiu fazer seu primeiro filme, Corra!, centrado na questão racial, ele sabia que esse tema estava desgastado, que a luta cultural era grande e que haveria muita animosidade com sua obra. O que ele fez? Levou para o lado do terror com humor, do absurdo, do comentário social que ataca todos os lados e que não está tentando dar lição de moral, mas apenas retratou a questão racial com cenas constrangedoras, assustadoras e engraçadas. O “como” fazer é sempre mais importante.
Então chegamos à segunda pergunta: O que você vai fazer com essa expectativa?
São poucas opções:
Atender a expectativa
Subverter a expectativa
Quando alguém senta pra assistir a um filme Velozes e Furiosos, essa pessoa tem certeza de que sua expectativa será atendida. Esse vai ser um filme casca-grossa, com cenas absurdas, muito carro, e pouco sentido. Mas se no meio do filme, ele mudasse para uma comédia romântica, certamente o público odiaria. Essa seria uma péssima subversão.
Quando Todd Phillips fez seu primeiro Coringa, o público esperava um filme sobre um vilão icônico dos quadrinhos, mas encontrou um drama pesado, cheio de camadas, com uma história de origem diferente no estilo Scorsese (um casamento de Taxi Driver e O Rei da Comédia). Mas essa subversão agradou o público e a crítica porque fazia sentido. Fazia sentido explorar esse personagem muitas vezes caricato por uma perspectiva mais humana. Fazia sentido entender a origem do vilão. Fazia sentido o comportamento do personagem no filme. Ele não estava forçando uma história, ele apenas deu muita personalidade ao personagem e deixou que ele agisse em situações de estresse.
Mas no segundo filme, todos esperavam algo parecido com o primeiro. Essa era a expectativa. Todd a subverteu e entregou um musical mal feito e desfez tudo o que construiu no primeiro porque ficou com medo de seu personagem ter ganhado vida, uma vida que ele desaprovava, e sentiu a necessidade de destruir esse personagem. O público entendeu, mas não gostou.
Pecadores começa como um drama de época, mas assim como Um Drink no Inferno, se transforma em uma história de terror com camadas interessantes de comentário social. E o público amou.
O público normalmente gosta de viradas que vão de baixa energia para alta energia. Se a história começa como um drama (baixa energia), mas evolui para um terror (alta energia), o público sente que houve uma evolução positiva da narrativa. Mas se a história começa em alta energia (ação) e evolui para baixa energia (romance), o público se sente traído.
Claro que, para escritores geniais não existem regras. Eles podem fazer qualquer coisa interessante com uma prosa agradável e uma jornada emocional clara. Mas se você sente que sua história está perdendo força no segundo ato, se pergunte: será que eu entendi a expectativa do público? E o que eu estou fazendo com ela?







Vai diretamente ao encontro do que estou passando agora no meu processo. Obrigado.
Tive uma decepção com panfletagem lendo Capitães de Areias, já nos anos quarenta a narrativa foi sacrificada em nome de um idealismo. Se fosse escrito hoje seria lacração. Panfletagem sempre enfraquece a história por mai boa vontade que seja.