Metanfetamina escocesa
Quatro séculos separam Macbeth de Walter White. Um é um general escocês do século XI, o outro um professor de química do Novo México. Mas quando Vince Gilligan concebeu Breaking Bad, ele estava trabalhando com a mesma estrutura que Shakespeare usou em 1606: um homem respeitável que escolhe o poder, paga um preço crescente por cada escolha, e desce até o fundo sem conseguir parar.
Toda tragédia começa com um evento que empurra o protagonista para fora da sua zona de conforto. É o que chamamos de incidente incitante ou evento catalisador, é o que dá a partida na jornada. Em Macbeth, três bruxas profetizam que ele se tornará rei, e isso muda completamente a sua vida. Mas em Breaking Bad, é o diagnóstico de câncer terminal que vai mudar tudo para Walt.
Os dois eventos funcionam da mesma forma narrativa: criam urgência, justificam ação drástica, e, mais importante, dão ao personagem uma desculpa que ele mesmo acredita. Macbeth pode dizer que está cumprindo o destino. Walt pode dizer que está garantindo o futuro da família. Essas são as mentiras que os personagens contam para si mesmos. Todos somos, em maior ou menor grau, movidos por mentiras que contamos a nós mesmos.
Mas observe o que os dois fazem com essa desculpa. Macbeth já era Thane de Cawdor, cargo concedido pelo próprio rei Duncan. A profecia estava se cumprindo sem que ele precisasse fazer nada. Mesmo assim, ele mata Duncan, causando sua própria ruína.
Walt já tinha um ex-sócio disposto a pagar todo o seu tratamento. Ele havia perdido a oportunidade de ser um bilionário no passado, mas agora recebe a oportunidade de ter uma vida digna na empresa que ajudou a fundar. Mesmo assim, ele recusa por mero orgulho. O orgulho é o principal fator que faz com que Walt minta para si mesmo.
Os dois personagens tinham saídas. Os dois ignoraram essas saídas. Isso é o que separa a tragédia de um simples drama de circunstâncias: o protagonista faz escolhas ruins quando escolhas melhores estão disponíveis. Diferente do dilema que é a situação onde o protagonista precisa escolher entre duas opções igualmente ruins. Não foi isso que aconteceu com eles. Criar personagens trágicos é trabalhar escolhas ruins, mas ainda assim justificáveis na perspectiva do personagem. Walt não queria receber o que na mente dele era esmola, seu orgulho não permitiria. Ele não está interessado na escolha mais nobre, mas na escolha que mais satisfaça seu ego.
A tragédia shakespeariana tem um conceito central: hamartia. Essa palavra grega aparece na Bíblia como “pecado”, mas não é a única palavra para pecado. Essa, especificamente, significa errar o alvo. Não é o pecado como rebeldia, mas uma falha de julgamento. A falha que conduz o personagem à destruição. Não é um defeito qualquer, é o defeito específico que entra em conflito direto com o que o personagem mais deseja.
A hamartia de Macbeth é a ambição. Ele sabe disso. Num solilóquio da cena 7 do primeiro ato, ele admite que não tem nenhuma razão para matar Duncan além da própria ambição: “Não tenho nenhum estímulo para impulsionar minhas intenções, apenas uma ambição desmedida.” A lucidez não o impede e é justamente isso que torna o personagem trágico.
A hamartia de Walt é o orgulho. E Breaking Bad leva cinco temporadas construindo o caso contra a desculpa da família. Walt compra dois carros novos com o primeiro dinheiro que ganha. Recusa ajuda financeira por questão de ego. Na quinta temporada, quando poderia sair do negócio com a família protegida, fica. No final da série, ele mesmo entrega o veredicto: “Fiz isso por mim. Eu gostava. Eu era bom nisso. Eu me sentia vivo.”
Para o escritor, a lição aqui é técnica: a falha do personagem precisa ser aquilo que ele mais nega ter. Walt passa a série inteira dizendo que é pela família. Macbeth passa a peça inteira dizendo que está cumprindo o destino. A história contradiz os dois sistematicamente, e é essa contradição que cria tensão.
Tanto Macbeth quanto Breaking Bad dedicam tempo considerável ao momento anterior ao primeiro assassinato. Macbeth faz um longo solilóquio listando razões para não matar Duncan. Walt literalmente escreve uma lista de prós e contras antes de matar Krazy-8.
Os dois autores, Shakespeare e Gilligan, estão usando o mesmo recurso: mostrar que o personagem sabe que é errado, escolhe fazer mesmo assim, e a partir dali se torna uma pessoa diferente.
Depois do primeiro assassinato, o limiar muda. Macbeth manda matar Banquo, amigo de anos, sem a mesma angústia. Walt mata Gale, envenena uma criança, e assiste Jane morrer sem intervir. A progressão em ambos os casos segue a mesma lógica: cada crime seguinte é um pouco mais fácil do que o anterior, porque o personagem precisa se convencer de que o crime anterior tinha justificativa. Recuar seria admitir que estava errado desde o início. E isso é algo extremamente importante. Pessoas, assim como personagens, têm muita dificuldade de reconhecer seus erros porque em sua mente elas os justificam. Criar a mudança de mente em um personagem requer mudanças drásticas em sua vida.
Esse mecanismo, onde cada escolha ruim obriga o personagem a justificar a próxima, é um dos mais poderosos da ficção dramática. Ele cria personagens que o público entende mesmo quando não aprova.
É estranho pensar que gostemos tanto de assistir ou ler histórias de vilões, mas não é sobre isso. É sobre a tragédia da queda de uma alma. Nos interessamos em saber como um monstro é formado, como um crime nasce na mente de um homem e o que isso causa em sua alma. Os dois protagonistas são apresentados como pessoas capazes de fazer o bem. Macbeth é descrito como herói de batalha, leal ao rei. Walt é um professor dedicado, pai presente, homem comum.
A tragédia requer essa base. Se o personagem já começa corrompido, não há queda, só confirmação. A força dramática vem de o espectador ver alguém que reconhece como humano fazer escolhas cada vez piores por razões que entende, mesmo discordando.







A hamartia precisa desencadear uma ação irreparável, como o assassinato nos casos citados, para o protagonista cair na espiral descendente? Ou pode situações reparaveis ter o mesmo efeito?
Como sempre, fantástico.