Uma história deve ser bem contada e bem cortada
Como a ciência está decifrando os padrões de boas histórias
Uma boa história precisa ser bem contada, isso é óbvio. Mas, de acordo com James Cutting, professor de Psicologia na Universidade de Cornell, ela precisa também ser bem cortada.
Cutting tem se dedicado a estudar como os filmes conseguem segurar sua atenção e por que alguns são mais bem-sucedidos do que outros nesse objetivo.
Para Cutting, são as transições entre as cenas — os cortes — que nos forçam a prestar atenção. Conforme os editores de filmes juntam as cenas, eles passaram a imitar o mesmo padrão que controla nossa atenção, independentemente da duração da cena.
Cutting relata que a maioria dos filmes tende a seguir esse mesmo padrão — um padrão recorrente chamado 1/f, que também é encontrado nos pulsares, batimentos cardíacos humanos, marés e até em certos segmentos da atividade do mercado de ações.
"Nossos cérebros geram esse padrão 1/f," disse Cutting. "O que descobrimos é que a estrutura de cenas nos filmes parece ter evoluído nos últimos 50 anos ou mais para se aproximar dele."
O filme mais próximo de um perfil 1/f perfeito? "De Volta para o Futuro" de 1985. Filmes antigos de Hitchcock também tiveram pontuações altas. Os filmes de "Star Wars" também seguiram o padrão.
Cutting e dois alunos examinaram 150 dos filmes mais populares feitos entre 1935 e 2005 em todos os gêneros. Eles analisaram cada corte em cada um dos filmes. Embora essa etapa do trabalho tenha sido feita por um programa de computador, levou de 12 a 30 horas para analisar cada filme e 15 meses para concluir o estudo.
"Os filmes ficaram mais rápidos, não há dúvida," disse Cutting. "O que é novo aqui não é apenas a duração média da cena, mas o padrão das cenas conforme são reveladas ao longo do tempo — isso é diferente nos últimos 50 anos ou mais."
Cutting compilou o comprimento de todas as cenas em um vetor — uma sequência de números — e realizou uma análise de Fourier que decompõe a sequência em ondas senoidais. Essas ondas revelaram uma estrutura de muitas ondas oscilantes de diferentes tamanhos, presentes simultaneamente.
"Temos ondas em nossa atenção que percorrem nosso corpo em períodos de dezenas de minutos," disse Cutting. "Outras ondas estão no domínio de minutos. Ainda outras duram dezenas de segundos. E todas elas estão lá ao mesmo tempo."
Mas o engajamento do espectador e a qualidade intrínseca de um filme não são a mesma coisa. Esta tensão revela que o alto engajamento nem sempre é sinônimo de alta qualidade. Um filme pode capturar a atenção do espectador, mantendo-o imerso e incapaz de desviar o olhar, mesmo que simultaneamente seja percebido como superficial ou vazio.
Cutting argumenta que os bons filmes contam boas histórias. Essas histórias podem ser complexas ou desdobrar-se lentamente, mas sua qualidade reside na envolvência emocional que sustentam. Avaliamos a qualidade de um filme pela profundidade do envolvimento emocional que ele gera. Um filme que toca profundamente o espectador, que o envolve em um nível emocional substancial, é considerado de maior qualidade.
Algumas lições que podemos extrair de Cutting para a sua escrita:
Estrutura Narrativa e Engajamento Psicológico:
Evite parágrafos muito longos ou mesmo frases muito longas. Quanto maior e mais complexo um parágrafo, mais você exige do seu leitor e com isso você diminuiu o alcance da sua escrita.
Use linguagem simples, fácil de decifrar, para que o leitor/espectador consiga acompanhar o raciocínio da história com mais facilidade
Atenção aos Detalhes Visuais e Estilísticos:
Intercale diálogos com descrições de cena, ajudando o leitor a entender o que o personagem está fazendo enquanto fala. Uma forma simples de fazer isso é colocando um objeto na mão do personagem.
Crie chapéus engraçados para seus personagens, ou seja, crie personalidades, mesmo no vocabulário ou forma de construir suas frases, que facilite para o leitor identificar qual personagem está falando e assim sinta que o “enquadramento” mudou e que a cena está avançando.
Equilibrar Engajamento e Qualidade:
Lembre-se de que o mais importante é uma boa história, então permita-se quebrar essas regras quando necessário para que a história avance ou para que os personagens sejam aprofundados.
Ao mesmo tempo, lembre-se que se em uma cena não existe avanço de história nem aprofundamento de personagem, é bem provável que essa cena seja inútil.
Leia como leitor e como escritor
Após escrever, leia em voz alta como um leitor e veja se existe ritmo na sua escrita. Como escritor tente identificar o que ficou longo demais, detalhado demais e tudo o que se tornou desnecessário. Shakespeare usava uma fórmula de notas tônicas para enfatizar determinadas palavras para que todas as suas obras seguissem um ritmo constante, fazendo com que o leitor a lesse quase como se estivesse cantando. Isso ajuda a criar cadência e segurar melhor a atenção do público.




tirando a parte sobre os trechos longos e cenas "inúteis" achei os pontos bastante pertinentes e interessantes. ainda não conhecia o padrão 1/f e vou pesquisar mais sobre. ótimo texto!
E se ele permite um estudo sistematizado das relações politicas permite também um estudo acuradovdas práticas e representações culturais.